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BOTEQUINS

Palavrórios.

Discursos copiosos e inflamados a troco de tudo.

(repetitivos)

Palavras trinchantes, perfurocortantes.

Velhas crenças mofadas, putrefatas.

(redivivas)

Derrame de frases feitas, palavras de ordem, pseudoideias.

Mananciais de contrassensos, parcialidades, adulterações.

(recitativos)

 

Tempo de discussões asselvajadas

De argumentos substituídos por bílis.

Tempo em que as opiniões abundam como glúteos

– mesmo que o dito seja desprovido de sentido.

 

E eis o mundo convertido num enorme botequim

– de ébrios falantes. pedantes. farsantes.

Incapazes de rir de si mesmos – mais seguro antiácido contra o ridículo.

 

Juan Carlos Alargón

(Leandro Gonsales Ciccone)

 

17 de junho de 2017

REPOUSOS

Em meio à balbúrdia de vozes e rostos

Semblantes vazios (de ar descomposto)

Aplaco as sombras de meus sentidos

Para mais um amanhecer.

 

Na exaustão dos deveres e rotinas mudas

Silêncios loquazes (a rogar por ajuda)

Por vezes apuro meus ouvidos

Esperando a tua voz reconhecer.

 

Que a leveza de teus passos

Que a firmeza de teus braços

Então me venham surpreender…

 

Livrar-me da angústia que me acossa

Para que em teu colo enfim eu possa

Adormecer.

 

Leandro Gonsales Ciccone

14 de maio de 2017

PEDESTRES

Depois de longo tempo, refazes um caminho que te era familiar;

Ruas que percorreste por anos, e das quais por outros tantos te ausentaste.

Com olhos redespertos, observas atento o que encontras ao teu redor.

 

Diversas são muitas das fachadas

Fechados estão alguns comércios, transformados outros.

Onde havia uns sobrados eleva-se um edifício

Tantos terrenos convertidos em garagens…

O velho barbeiro não te cumprimenta da porta

– talvez morto esteja, pela placa de aluga-se já desbotada –

Ressecadas estão as plantas que a velha senhora regava todas as manhãs

– quem sabe já não possa cuidar de seu jardim –

A moça que se exercitava correndo por essa mesma hora não o ultrapassou

– possível que já seja mãe, imersa em outras rotinas –

 

Os meninos que brincavam na calçada agora são homens apressados

Outros cães latem nos portões – filhotes dos que outrora se agitavam à tua passagem

O mesmo canto de outros pássaros surge dos galhos

De árvores que não te lembravas de serem tão altas…

 

E são essas árvores que enfim despertam a tua consciência.

Antes frágeis brotos apoiados em estacas

Ora projetam sua sombra frondosa pelo caminho que refazes;

Testemunhas silenciosas daquilo que perdeste

Das pequenas mudanças das quais só agora te apercebeste

Por não teres seguido pedestre nas mesmas ruas de antanho.

 

Sob a sombra dessas árvores, escuta o som dos teus passos;

Guarda-os em algum recôndito da tua própria memória.

Pois o Tempo que altera o que vês em tua caminhada

Haverá um dia também de silenciá-los.

 

Leandro Gonsales Ciccone

12 de junho de 2016

PHAROUX

Uma névoa escura envolvia o cais Pharoux naquela noite silenciosa.

Junto ao píer, um barco expele fumaça de cheiro forte. O cais estava deserto. Não havia viv’alma nos arredores do conhecido atracadouro. Não havia…

Mas esperem um momento. Há alguém caminhando por sobre as tábuas podres do minúsculo porto. As madeiras rangem, denunciando sua chegada, aviso mórbido de algo que está por acontecer…

E quem é esse homem que caminha sobre o cais?

Sem dúvida, não é um marítimo. Não tem o passo gingado dos homens do mar. E suas roupas… Um terno caro de casimira, sapatos de verniz, um chapéu de feltro. Nem de longe se assemelham ao algodão grosseiro de um estivador ou marujo. Um homem de posses… E se ainda pudesse pairar alguma dúvida sobre a sua condição social, esta desvanecer-se-ia ao observar seu anular direito. Sim, pois nem o capitão mais próspero de um bom navio mercante poderia dar-se ao luxo de ostentar um rubi desse tamanho. Que pedra. Que jóia. Mas voltemos ao nosso homem.

Ele caminha resolutamente na direção do barco que esquentava o motor. Sobe à bordo e, sem trocar com o maquinista uma única palavra (apenas um leve aceno de cabeça), dá ordem de zarpar. E o barco afasta-se lentamente do cais, internando-se na imensa Baía de Guanabara.

A viagem dura cerca de meia hora, e termina num discreto ancoradouro, quase invisível numa das ilhotas da baía. O homem desembarca com vagar, um tanto receoso, procurando não afastar-se muito da lâmpada a querosene que ilumina parcamente a praia deserta. Deserta? Ora, nem tanto…

Do interior da vegetação, subitamente, surgem dois homens. Ambos trazem no rosto e na aparência um quê rústico; esses sim são marinheiros. E agora estão diante do homem bem vestido, que os aguarda em silêncio, fazendo um tremendo esforço para ocultar a ansiedade que lhe vai no espírito.

__ Trouxe o dinheiro, doutor? – exclama abruptamente o mais velho dos recém-chegados.

__ Sim – responde ele – Trouxeram o material?

Um pacote embrulhado em papel pardo, amarrado com barbante, surge do bolso do marujo. Nosso homem elegante o toma nas mãos e aspira profundamente, tentando devassar seu conteúdo. E o seu sorriso parece dizer que gosta do que o pacote contém.

__ Ótimo – conclui satisfeito, e tira da carteira seis notas de cinquenta mil-réis que entrega ao marinheiro mais velho.

__ Não, doutor – diz este, soturno – São seiscentos mil.

__ Como? Não foi isso que acertamos.

__ Um dos nossos morreu pela sua encomenda, doutor… Cada dia isso fica mais perigoso…

__ Canalhas! – inadvertidamente, saca do casaco uma pistola – Salafrários! Eu…

Não houve tempo de completar a frase. Uma lâmina fria o atinge no flanco, enquanto outra lhe rasga o peito. Mal pode gemer. Tomba inerte, formando uma mancha rubra na areia. E os dois marujos, acompanhados do maquinista que trouxera a vítima, retiram-lhe a carteira, a pistola, o relógio, o anel. Mas no movimento de arrastar o corpo para o barco, levá-lo mais adiante e arremessá-lo ao mar, o rubi se perde do bolso de um deles e cai na água junto com o morto.

O homem e o anel são tragados na escuridão – do mar e da noite. E enquanto o cadáver corre pesadamente rumo às profundezas da baía, o anel caminha com mais vagar, lançando reflexos rubros da luz do luar pelas águas. Reflexos de sangue.

 

Cláudio de Lima

19 de março de 2016

LETTERS FROM ITALY: ROME

Sunset lights at the end of an autumn day of travel

Brings a faded bright on centennial stones

And massive walls and columns and arches of bricks

– once covered with great marbles and astonishing colors.

We are in Rome, ancient capital of a glorious empire.

 

Walking slowly on the large Mussolini’s avenues

At a glance we can abridge all of her most precious remains.

Standing on the core of the Forum we could see

The Trajan’s Column, the Constantine Arch, the Colosseum.

We could climb the Palatine or the Capitoline

But above all the ruins and exhibitions, we can feel.

 

Feel the crowds wearing their togas, crying loudly at the markets

Or listening some Cicero speaking at the Rostros

Or making their offers on the numerous temples

That assemble all the gods and beliefs of the known world.

Feel the bloodily enthusiasm of the masses at the great arena

Thousands of men and women ruled by the fights of famous gladiators

Watching the criminal executions of a State that became caput mundi

And impose his rule among people of all origins, cultures and languages.

 

Feel the pride of a powerful and rich elite

Whose palaces were filled with precious spoils from all over the world.

Feel the vanity and doubt of those who decides war and peace

Those who lived in beauty and comfort – and lust

Those who walked some day under the tall cypresses

That still stands on at our own way.

 

Feel the anguish of a whole life and civilization

That collapsed and fell under their incredulous eyes

That was destroyed and forgotten for centuries

And whose echoes we still could listen

Beyond those stones and cypresses and myths.

 

Beloved and Eternal Rome

Capital of Antiquity, head of passed glories

City plenty of gates and bridges to our own past;

Capital of Time and of the Inexorable – qui moriturus te salutamus!

 

 

Lord AshGray

HPIM0781From his Minimal Manor

February 21, 2016

 

ÁS DE COPAS

Depois de um último segundo de indecisão, o homem transtornado tocou a campainha.

Logo ouviu o ruído da tranca elétrica sendo liberada. Hesitou mais um instante no primeiro degrau, mas então subiu as escadas num só fôlego. No topo, apenas uma porta à direita, aberta, dava acesso a uma pequena sala; sentou-se numa das duas cadeiras que ladeavam a mesa no centro do espaço. Apesar do terno bem cortado, da gravata sóbria, dos cabelos alisados com gel, havia algo de descomposto na sua figura.

Enquanto esperava, não notou nenhum dos detalhes do lugar. Nem a toalha imaculadamente branca, sobre a qual tamborilava nervosamente os dedos, nem o enorme vaso de rosas vermelhas num aparador junto à janela fechada, nem as cortinas que tomavam quase toda a parede a ele oposta – que enfim se abriram para a passagem da cartomante.

Seus olhos rapidamente percorreram as características daquela mulher. Essa sim lhe despertou a atenção. Seu vestido vermelho, o xale preto sobre os ombros, os cabelos amarrados em coque; um quê na fisionomia que lhe pareceu talvez teatral demais. Quando fez menção de levantar-se, ela interveio:

__ O que aqui trouxe tão elegante cavalheiro já não é o bastante para fazê-lo permanecer?

__ Já não sei mais se ainda quero submeter-me a isso – respondeu com certa rudeza, mas sem levantar-se completamente.

__ Talvez realmente não deva – a mulher sorriu com certa malícia, sentando-se à mesa e tirando de um bolso do vestido um baralho de cartas.

__ Basta, senhora! Faço papel de ridículo ao me expor a tais charlatanices! Não conheço as cartas sequer numa mesa de jogo!

Ergueu-se enquanto falava, e virava as costas quando a cartomante interveio mais uma vez:

__ Por que não se senta novamente e permite que eu lhe mostre quem sou? Depois, caso não goste, não precisará pagar. Mas não admito que despreze dessa maneira o poder das cartas.

O homem reacomodou-se com expressão carregada. A cartomante prosseguiu, com semblante grave, enquanto embaralhava:

__ Jamais duvide do dom da vidência, cavalheiro. Seus ensinamentos passam de geração em geração há séculos… Corte.

Pouco à vontade, ele cortou três vezes o maço de cartas que a mulher lhe apresentou.

Lentamente e em silêncio, ela distribuiu as cartas sobre a mesa, viradas para baixo. Depois de observá-las por uns instantes, sem olhar para o homem à sua frente, começou a desvirar uma por uma enquanto falava com voz pausada e muitas lacunas:

__ O senhor tem uma dúvida angustiante, cavalheiro… Ninguém consegue ajudá-lo… O senhor se envergonha de suas suspeitas mas não consegue livrar-se delas… Um conhecido casualmente mencionou o meu nome… Está com medo, cavalheiro, e tem enorme fúria em seu coração… E tem razão para tanto… Sem sombra de dúvida… Sua esposa o trai…

__ Blasfêmia! Como ousa! – o homem saltou da cadeira e inadvertidamente ergueu as mãos na direção da cartomante.

__ Mas não foi isso, exatamente isso, o que o trouxe até mim? Não foi isso precisamente o que não teve coragem de me perguntar? Sente-se, senhor, e escute a resposta que procurava.

Pálido, ele deixou-se cair sobre a cadeira. Ela continuou:

__ Sua mulher, que o senhor tanto ama, que parecia tão boa, tão meiga, jamais lhe foi fiel em todos esses anos. O amante que tem agora não foi o primeiro…

__ Sua megera ordinária! – sua mão direita agarrou-lhe o braço, que ela desvencilhou com um olhar.

__ Deve guardar essa indignação para quem o traiu, senhor. E certamente esse é o desejo que ora ocupa o seu coração.

__ EU MATO! EU MATO OS DOIS! – o homem suava, seus cabelos se haviam desgrenhado, suas mãos tremiam.

Com outro olhar, a cartomante fez com que se calasse. E prosseguiu:

__ Mas há aqui uma última carta…

Sem compreender, ele seguiu com os olhos a carta apontada.

__ Um ás preto… Ás de copas?

__ Ás de Copas – um riso mau assomou aos lábios dela, sem que ele percebesse – Isso significa que ainda existe amor em sua esposa, que o senhor pode reverter esse mal se salvar sua honra…

__ Mas ainda hoje dou cabo desse pulha! Hei de encher-lhe o peito de ferros! Hei de varar-lhe o coração asqueroso…

Levantou-se enfim de um só movimento, jogando ao chão sua cadeira, e saindo furioso sem olhar para trás. Enquanto isso, recolhendo e embaralhando as cartas, a cartomante murmurou:

__ Melhor mesmo que vás sem pagar, cavalheiro… Ás de Copas! ÁS DE COPAS! – interrompeu-se com uma gargalhada rouca – Como pode ser tão imbecil? Como um homem pode confundir copas e espadas? ÁS DE ESPADAS, SEU CRETINO! Isso é o que recebestes. Haverás de encontrar a morte, grandessíssimo idiota. Morrerás pela própria arma com que intentavas matar o outro… Ás de Copas… Quem não sabe diferenciar copas de espadas não merece viver…

Ainda com o mesmo riso nos lábios, levantou-se, ajeitando o xale preto:

__ As cartas não mentem jamais… Mas as cartomantes podem mentir.

E então saiu, fechando a cortina atrás de si.

 

Leandro Gonsales Ciccone

14 de fevereiro de 2016

 

PROTEÇÕES

Por detrás das barreiras que erguestes

(em priscas eras, quando ainda confiáveis em vossas certezas)

Ouvis o rosnar dos nefandos monstros que ali ocultastes

Despertos de sua vigília por vossas vacilações.

 

Inúteis foram os grossos portões que construístes

(numa faina de anos, porque duvidáveis de vossas forças)

Sísificos esforços desperdiçados numa causa perdida

Pois o clangor de suas garras e gargantas segue a martelar vosso peito.

 

Aceitai a evidência diante de vossos olhos amedrontados

– jamais tereis portões ou correntes capazes de conter aquilo que temeis.

Pueril é a esperança de que tais criaturas existam apenas em vossa mente

– vivas e reais sempre serão e estarão à vossa espreita.

 

Iludiste-vos por demasiado tempo acreditando um dia poder vencê-las.

Fantasiastes em denodado engodo acreditando um dia poder livrar-vos.

Refleti e reconhecei o que vos cabe fazer:

Hora dos gonzos rangerem, dos portões se abrirem, das correntes se quebrarem

Hora de libertar vossos monstros (já que não podeis fazê-lo a vós mesmos).

 

Vossa alma haverá de enregelar-se ao vê-los enfim emergir das sombras

– ai de vós se não estiverdes preparados para ao menos encará-los nos olhos!

– risíveis sereis vós se os esperardes com lanças e escudos

(piegas espetáculo de vossos arraigados melodramas…).

Cedo descobrireis que vossos monstros vos conhecem.

Que não vos devoram – porque de vós dependem

Mas que de vós esperam que os sacieis

Com as migalhas de afeto que possais recolher pelo mundo

(para não se refestelarem com vossa alma lacerada…)

 

Rezai a todos os vossos deuses para que essas migalhas sejam fartas

Para que não vos falte o óbolo dos que são mais felizes.

Farteis vossos monstros; com isso alimentareis a vós mesmos

Deixai que se banqueteiem à vista do vosso orgulho exangue.

E talvez um dia possais compreender

– apesar de vosso asco e de todo medo

– apesar de vossa soberba e de toda angústia

Que são tais monstros a vossa mais próxima companhia.

 

 

Leandro Gonsales Ciccone

30 de janeiro de 2016