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Arquivo da categoria ‘Heterônimos’

LUZES

Setecentos, Oitocentos, Novecentos – três séculos de plena humanidade! Ei-nos conduzidos pelos grandiosos iluministas (e seus sucessores liberais, socialistas, cientificistas, fascistas…) Vaga-lumes que se viram como portentosos faróis Guias seguros em meio às trevas do fanatismo – mas imersos em sua simplória metafísica – Redentores do humano contra o arbítrio do divino…   Balela! Não [...]

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PARAÍSOS

Conversa de senhoras à saída da missa. Dilúvio de mantilhas negras e passos tardos, diálogos em altos brados entremeados de glória-ao-pai e valha-me-Deus. Viuvez beata, sem lúgubres pensares. Por um desses acasos, calhamos de caminhar na mesma direção, eu e umas poucas daquelas matronas. Ia em meu caminho de vagos pensares, ruminando versos de uma [...]

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PALIMPSESTOS

Dia de faxina no quartinho de despejo. Quarto dos fundos de toda casa – e de toda vida.   Amontoado poeirento de coisas inúteis e recordações esquecidas. Parafusos enferrujados, tocos de madeira, lâmpadas queimadas, Aparas de papel, restos de tinta em latas mal-fechadas, Brinquedos mutilados, cadernos amarelados, Recortes de jornal com notícias sem significado… Fotos [...]

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MENINA

Não chores, menina Pois o amor foi maior que o pranto Pois o amor será maior que o desencanto Pois o amor é todo teu   Não chores, menina Pois todo amor foi maior que teu pranto Pois todo amor será maior que teu desencanto Pois meu amor é todo teu   Não chores, menina [...]

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WALTONS

Talvez a coisa mais difícil em amadurecer seja a perda da inocência. Coisas que um dia fizeram sentido, criaram inquietas expectativas, trouxeram ternas alegrias – coisas que se perderam nas lembranças de infância. Das noites de Natal aos dias de aniversário, do primeiro dia de férias aos desenhos animados das manhãs de sábado… Cada um [...]

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OURIVES

Há coisa de dois ou três dias, vagava solitário e meditativo pelas alamedas de Montparnasse, quando cruzei com duas jovenzinhas risonhas de ar sonhador, tagarelando alegremente diante da vitrine de uma joalheria. Aos seus olhos, refulgia um conjunto de colar, bracelete e brincos de ouro com safiras, magnético o bastante para seduzir mulheres de todas [...]

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AMORE

Amei. E amei muito. No passado.   Amei porque o amor me envolveu (Derrubou-me, na verdade…) Mostrou-me que havia algo mais possível, Crível, sensível, Nesse mundo que se divide em dois: Derrotados e perdedores. Mas veio a desilusão. Veio a morte dos sonhos, o fim de tudo o que era E não foi mais. E [...]

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LINHA DE MONTAGEM

Era uma vez uma fábrica de bonecas, produzindo a todo vapor para as compras de Natal. Numa leva de novos empregados, contratados no começo de dezembro, assumiu um posto ao final da linha de montagem um desses homens entediantemente corretos, o senhor Caxias, figura a princípio ideal para o controle de qualidade da pequena fábrica. [...]

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CANIS FAMILIARIS

Bons amigos, os velhos cães! Mesmo quando agressivos, jamais dissimulados entre sorrisos afáveis, palavras corteses, torpes protestos de amizade… Latidos e rosnados adiantam a pouca camaradagem; Avanços ficam por conta e risco dos valentes (mas jamais dos incautos). Ferozes na defesa, entretanto, quão ternos no afeto; E se nada no focinho indica a disposição amistosa [...]

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SONATA

Um jovem de elegância aristocrática e ares janotas atravessava os jardins de uma rica propriedade nos subúrbios de Paris. Cabelos negros um tanto revoltos, olhos intensos e muito azuis, sobrecasaca justa, bengala com castão de marfim; levava com aparente displicência uma pasta grossa de couro e uma maleta para o instrumento. Murmurava acordes de si [...]

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