Dia de faxina no quartinho de despejo.
Quarto dos fundos de toda casa – e de toda vida.
Amontoado poeirento de coisas inúteis e recordações esquecidas.
Parafusos enferrujados, tocos de madeira, lâmpadas queimadas,
Aparas de papel, restos de tinta em latas mal-fechadas,
Brinquedos mutilados, cadernos amarelados,
Recortes de jornal com notícias sem significado…
Fotos de amigos cujo próprio nome já se perdeu;
Mofado VHS para o qual não há mais videocassete
– gravações caseiras de natais bolorentos
e aniversários com tios mortos e primos extraviados –
Antigos rancores, farrapos de lembranças, personagens extintos,
Entulhos imemoriais nos escaninhos da alma;
Sonhos desfeitos, projetos abandonados, amores satisfeitos,
Marcas de pó e imundície nas dobras da experiência.
Dia de faxina nos porões da mente.
Hora de sepultar cadáveres, exumar futuros, descartar trambolhos;
Munido de vassoura e balde, lavar as prateleiras da memória,
Abrir espaço para as novas tralhas que hão de vir…
Juan Carlos Alargón
agosto de 2011
Nos últimos tempos, nenhuma espera foi tão boa quanto essa. Ler algo de meu querido Juan é o sol que não veio nesse domingo, é a coragem que não tem vindo ultimamente.
Eu não sabia o que o termo ‘palimpsesto’ era. Na verdade, minha professora de Linguística Românica falava exatamente disso na quinta-feira-última…
Enfim, adorei ganhar mais uma palavra para essa caixinha transbordante que tenho guardado na cabeça. E, você sabe que ela continuará assim por um bom tempo. Pois admito que ainda não quero – bom, eu acho que ainda não é a hora – de tirar dela velhas fotografias amareladas, cartas que já perderam parte de sua tinta, discos riscados que já não servem de nada. Afinal, eu nem tenho tantas tralhas novas assim.
Ora, querido e saudoso Leandro, gostei muitíssimo do poema. E do fato de ele ter sido escrito pelo Juan.
Saudades sinceras que saem de uma parte nem tão empoeirada da caixinha, acredite. Um abraço e um até mais,
Lala.
poxa vida, Juan como Educador, é o que grito nas ruas; já que não pagamos nada a eles, seria um ótimo incentivo” rs
Com certeza essa faxina faz-se necessária inúmeras vezes durante nossas vidas. E é curioso como que, com o tempo, tantos “farrapos de lembranças” (simplesmente adorei essa expressão juaniana ^^) vão se desfazendo, deixando de ser ”farrapos” e passando a ser um punhado de fios soltos que, sem todas as amarras de antes, não produzem mais o mesmo efeito na ”roupa” cheia de retalhos que vamos costurando dentro de nós e com nosso passado.
(e ainda tenho que o seja com mais frequência, a despeito do pouquíssimo tempo livre do escritor em questão).
Como sempre, um deleite encontrar um texto seu por aqui. Ainda tinha esperanças de que um dia eles voltariam
Que essa ”faxina” deixe sensações únicas e dignas de memória para um certo amante do Passado e das Letras tal qual acontece com essa também amante dos mesmos.
Um beijo e um queijo a um ”escritor por delírio”,
Jú.
PS: e espero que esta semana a voz de alguém esteja melhor porque dores de garganta conseguem mesmo ser doloridas até para quem não as tem.
E novamente, aguardando novas ”limonadas” por aqui (:
Take care.
Beijo,
Jú ~