Há coisa de dois ou três dias, vagava solitário e meditativo pelas alamedas de Montparnasse, quando cruzei com duas jovenzinhas risonhas de ar sonhador, tagarelando alegremente diante da vitrine de uma joalheria. Aos seus olhos, refulgia um conjunto de colar, bracelete e brincos de ouro com safiras, magnético o bastante para seduzir mulheres de todas as idades e condições. Em meio a seus risinhos nervosos, percebi que fantasiavam a história daquelas jóias, supondo-as como alguma herança de família, obra de mestres parisienses de antanho, consignada àquele joalheiro por alguma herdeira de velha linhagem e parcos recursos, arruinada pela Revolução… Suspiravam, imaginando um rapaz que delas se enamorasse e lhes trouxesse aquele mimo como prova de afeição… Não pude deixar de sorrir, fosse pela fantasia em si ou por sua impropriedade; e tão logo as mocinhas se afastaram, aproximei-me daquela vitrine. Reconheci o tipo de trabalho e de acabamento; imediatamente lembrei-me de um lugar onde vira uma peça praticamente igual àquela, numa loja em Marselha, onde o joalheiro bonachão se entretivera a contar-me seu percurso e suas origens.
Essa lembrança me trouxe de volta a sensação de uma brisa salgada, fez-me cruzar o azul do Mediterrâneo na direção da Gibraltar britânica, trouxe-me na amurada de um veleiro qualquer os ventos cálidos que sopram sobre os viajantes as areias imemoriais do majestoso Saara. Em seu extremo atlântico, em terras do sultão do Marrocos, vi-me num porto fervilhante de vida, numa imensa medina cercada de pequenos cubículos atulhados de panos e vasilhas, incensos e louças, perfumes e especiarias, ébanos e marfins, em meio a uma algaravia de cores e vozes, aromas e sabores. Na mesquita ao fundo, grandiosa em sua solidez e em seus ladrilhos geométricos, debruçado sobre o minarete, o muezzim iniciava o chamado à oração – e de súbito, como que por encanto, a algaravia cessava por completo, pequenos tapetes surgiam de todas as partes, os homens debruçavam-se piedosos e a vasta praça era tomada por um uníssono de vozes graves soando submissas. Em minutos, as preces se extinguiam e a vida retomava seu curso, e os sentidos voltavam a mergulhar naquele caos de impressões.
Mas logo transportei-me da balbúrdia da medina para as ruelas estreitas que se ocultavam em meio aos cubículos; segui muito rente a suas construções singelas em tons de ocre, por onde circulavam pessoas apressadas, carregando bilhas de água, cestos com tâmaras e figos, pães sem fermento e bolos apetitosos. Do interior das casas simples vinha o som de conversas e risos de crianças, o aroma forte de chá ou café frescos, e de tabaco consumido em conjunto, em narguilés de vidro e louça, por homens em túnicas de seda instalados sobre tapetes. Segui aqueles caminhos tortuosos, desviando dos cestos e dos panos deixados nos parapeitos das janelas; passei sob arcos de tijolos de terra e sob plantas que se derramavam de seus vasos nas pequenas sacadas, até chegar enfim a um daqueles pequenos conjuntos de porta e janela, ao rés do chão, com seu interior velado por um cortinado de tule. Numa bancada revestida em pedra, voltada para um pátio interior que tinha uma pequena fonte e um jardim, acomodado em almofadas sobre um banco, iluminado por duas ou três lamparinas de azeite, diante de um pequeno fogareiro, cercado de delicadas ferramentas, ali estava o ourives. Diante de si, pequenas barras de ouro e prata, que aquecia num cadinho e malhava cuidadosamente sobre a mesa de pedra; ao seu lado, rubis, topázios, minúsculos diamantes, safiras, ainda brutas, latentes da beleza que apenas os olhos do artífice podiam ver, e que caberia a suas mãos revelar. Absolutamente alheio a tudo o que o cercava, ao ruído incessante das ruas, às conversas das pessoas, ao próprio murmurar da fonte – e aos meus passos por detrás de si – seguia mergulhado em seu labor, cinzelando o metal, lapidando as pedrarias, compondo conjuntos que impressionavam pelo brilho, e ainda mais pela arte. O tapete de oração aos seus pés mostrava que apenas a voz do muezzim podia romper a sua concentração; um prato com damascos e um bocado de peixe seco negligentemente disposto a um canto de seu banco talvez constituísse o seu desjejum. Trabalhava indiferentemente ao destino de suas obras; pouco lhe parecia incomodar que suas jóias se ocultassem sobre o véu de uma donzela maometana ou que ornassem o colo de uma dama cristã. Alheava-se mesmo de si, sem um instante de vacilação, movido por uma espécie de força interior que parecia lhe ditar exatamente cada pequeno corte, repuxo, gesto. À sua esquerda, já lá se encontravam prontos os brincos da vitrine em Montparnasse…
Quando dei por mim, cismava inconsciente diante daquela vitrine, sem saber dizer quanto tempo se passara. A alguns passos, outro par de mocinhas palradoras cochichava entre risinhos, perguntando a quem poderia eu presentear com aquelas jóias (uma esposa? talvez, oh, uma amante?!…)…
Afastei-me também sorrindo. Deixei que aqueles objetos começassem com elas uma nova espécie de aventura; afinal, quem sabe o que se passa pelo espírito dos transeuntes diante de uma vitrine?
Emmanuel de Notredame
junho de 1821
(Leandro Gonsales Ciccone)
Saudoso senhor!
Nem eu consigo acreditar na alegria que me tomou ao encontrar algo novo aqui hoje. E mais feliz ainda fiquei ao ler, e me afastei da história também sorrindo.
Ora, claro que eu jamais pediria um texto novo, porque deve mesmo ter muitíssimo o que fazer, como sempre. Mas, essa espécie de falta estava me deixando um tanto aflita.
Aflita por não mais escrever? Acredito que não… Aflita por sumir daqui como sumiu de meus dias. Ah, que coisa!
É por isso que estou demorando tanto para redigir essas míseras linhas – nem poesias têm me saído tão difíceis. Só para escrever algo que seja bonito para o caso de você ler. Ou então que lhe faça esboçar um sorriso, assim como ‘Ourives’ me fez sorrir.
Não sei se deu certo. Mas, ao menos, quero que saiba que faz mesmo falta em meus dias. Há um bom tempo. Se ao menos pudesse ter notícias do senhor a distância! Mas, enfim, a vida de vez em quando é azul mesmo.
Um abraço de caramelo,
Lala.
Caro Leandro,
novos textos levam a novos comentários.
Primeiramente, adorei o texto, mas mais ainda por me lembrar de uma das razões que me levam a amar a Literatura. Acredito que o Escritor-assim como o ourives- lapida as palavras brutas, transformando-as em joias das mais belas, brilhantes e por vezes até conflitantes em si mesmas (como aquela espécie de pérola que chamavam de Broátiki, não é?) que despertam as mais variadas sensações, signos e lembranças.
E ainda há aqueles que ousam taxar as Arte, a Pena e a Cultura de inúteis. Pobres destes que não deixam-se levar pelo caminho deste tripé e privam-se de toda uma gama de conhecimentos, experiências e descobertas.
Sorte de nós que alguns ainda o valorizam e permite que nós provemos do sabor deste mundo das Humanidades.
Para variar, cá estou eu divagando e ”filosofando” novamente.
Obrigada ao Emmanuel por compartilhar um pouco de sua vida com os acompanhantes deste sítio virtual (: Que muitos mais venham!
Melhoras a alguém que está quase resfriado e que cortou o cabelo hehe.
‘Au revoir’ e até breve, Jú.
PS: ”As Arte” doeu-me na espinha.
”As Artes”, pelo amor dos deuses! Teclados me irritam porque canetas nunca permitiriam tamanho erro de concordância, não? ^^