A garçonete colocou os cardápios sobre a mesa.
Apenas Felipe, com um olhar oblíquo, deteve-se nela. Os outros, gargalhando, ouviam Norberto terminar uma daquelas suas histórias:
__ Bom, depois de duas horas de bar eu ainda não tinha conseguido nem um beijinho… Mal e mal ela me deixou pegar na mão… Eu já estava perdendo a paciência. Chamei o garçom, pedi a conta, e vi que ela ficou meio frustrada. Epa! Ainda podia ser! Aí banquei o cavalheiro silencioso, quase sempre funciona: não deixei que ela dividisse a conta, e fui levá-la em casa falando sobre amenidades, acho que falamos até de uma propaganda antiga de cerveja… Paro na porta do prédio, desço, abro para ela, e pergunto aonde dar o beijo de boa-noite; ela fica vermelha, eu acaricio seu rosto, digo que era uma pena, mas ficava sem beijo então, e ela me puxa – beijaço, beijaço, subimos para o apartamento e pimba, pimba, pimba…
O “pimba, pimba, pimba” final fora acompanhado de eloqüentes gestos com as mãos. E os quatro choravam de rir, começando pelo próprio Norberto, vermelho, entusiasmado com a própria história.
Aqueles quatro haviam estudado juntos no colégio. Exceto Armando, que foi para Contabilidade, os demais ainda fizeram Direito juntos. Trabalhavam todos ali pelo Centro Velho, e se encontravam uma ou duas vezes por semana; Norberto e Armando moravam a dois quarteirões de distância, e costumavam jogar tênis aos sábados – vez ou outra, iam com Lucas para o futebol no condomínio do Felipe, o único casado na mesa.
Escolhiam alguma coisa no cardápio, ainda animados pela gargalhada recente, quando Norberto pigarreou e fez uma pose séria:
__ Muito bem, senhores, hoje temos novas – e graves. Como padrinho, faço as honras, mas a própria vítima é quem deve confessar seu crime…
Novos risos. Armando hesitou por um instante, meio zangado com o gracejo do amigo, mas acabou sorrindo e explicou-se:
__ Pois é, depois de oito anos, meu sogro me encostou na parede… Ou casa ou morre, cabra – forçava um sotaque nortista, que arrancou uma gargalhada geral – E não teve jeito, a Carina falou que ainda quer ter filhos, que não admite que eu tenha idade para ser avô deles, e blábláblá…
__ Em suma, tu és uma besta, Armando. Era o único que ainda não tinha feito essa bobagem de casar, e vai cair logo agora, nessa idade – Lucas debochava, recém-divorciado, enquanto Felipe balançava a cabeça – Olha aí, até o Fê não se conforma, e olha que ele está casado já faz tempo… Quanto mesmo?
__ Vai fazer dez anos em outubro – um tanto alheado, Felipe alisou os cabelos curtos, que já estavam ficando grisalhos nas têmporas – Dez anos! Logo eu, o mais novo da turma, o primeiro a casar, ninguém punha fé, olha aí…
__ Sem essa de mais novo, meu chapa, são só uns meses de diferença, e você tem bem mais cabelos brancos que eu – Norberto piscou para ele, enquanto chamava a garçonete.
__ Vamos no de sempre? – Lucas perguntou, e logo foi repetindo o pedido habitual – Olha, Isabel, você traga aqueles pastéis de queijo no capricho e os quatro expressos grandes de costume, o do Felipe com leite, não é?
Anotado o pedido, a moça foi para o balcão, acompanhada pelo mesmo olhar oblíquo de antes. Armando não perdoou:
__ Casado, casado, mas fica aí cobiçando a moça do café…
__ Sempre achei que ela valia a pena, mas hoje, sei lá o que ela fez, ficou melhor ainda – Felipe continuava voltado para o balcão – Acho que foi o cabelo, fica sempre preso, hoje ela deixou solto… Sou tarado por um cabelo comprido…
__ Deixa a Júlia saber disso, camarada, logo ela que sempre corta mais curto porque acha que você gosta – agora era o Lucas que se divertia com ele – E veja lá, hein, ela é prima da minha ex-mulher, e aquela família é dureza…
Felipe sorriu de leve, tamborilando os dedos sobre a mesa, em meio a uma nova onda de risos. Armando cruzou olhares com Norberto, como que a inquirir o que estava havendo. Este pôs a mão no ombro do amigo, perguntando:
__ Tudo em ordem com a Júlia?
__ Mais ou menos… Ela quer engravidar, mas parece que não há jeito… Fomos ao médico, tudo em ordem, mas bebê que é bom nada… Hoje de manhã eu acordei com ela chorando, sentada na cama, dizendo que a culpa era minha, que eu já não me interesso por ela como antes, essas asneiras… Desnecessário, não é não?
Os amigos concordaram. E Lucas tentou retomar o curso divertido da prosa, com um tapa amistoso no joelho do Felipe, que aquiesceu prontamente:
__ Mas calma lá, vamos deixar essas rusgas de casal de lado, afinal o Armandinho vai casar… E quando vai ser isso?
__ Olha, no começo do ano que vem, eu acho, lá para março. Vocês sabem que são elas que resolvem essas coisas… Aliás, são elas que resolvem tudo!
Chegaram os cafés e os pastéis. Nesse momento, Felipe preferiu ocupar-se tirando o paletó e dobrando as mangas da camisa.
__ Pode crer, eu ainda lembro como foi – era o Norberto, último a casar, primeiro a se separar, quem lembrava – O noivo acompanha para todo canto, visita quinhentos lugares, prova docinhos, roupas, assina os cheques; ai dele, porém, caso se atreva a dar palpites! Nada de sugerir coisas para a lista de casamento; nada de querer convidar os amigos do futebol; e nem pensar em discordar da decoração, das músicas… Agora, se alguma coisa der errado, sai de baixo; vai precisar de muita paciência para fazer de conta que se importa com aqueles vestidos amarelo-manga para as madrinhas, que tinham sido reservados dez minutos antes para um outro casamento…
Os outros riam, entreolhando-se, tentando descobrir se o Felipe ainda estava chateado. E foi ele mesmo quem chamou a atenção dos amigos:
__ Olha lá, Norberto, você continua fazendo sucesso… Naquela mesa da frente, aquela velhuscona platinada não pára de olhar para cá… Ei, ei, não olhem todos ao mesmo tempo, cadê a educação…?
Norberto olhou primeiro, e rapidamente voltou-se, tentando abafar o riso. Depois de todos terem finalmente visto a figura, eram os quatro a segurar uma gargalhada. Com os olhos úmidos, iam comendo os pastéis e tentando disfarçar a hilariedade.
__ Podem rir, podem rir, ela foi embora – Armando avisou, ao vê-la saindo, depois de tropeçar num velhinho da mesa ao lado.
__ Caramba! Que gosto desgraçado! – Norberto até chorava de rir.
__ Gamou foi em você, meu amigo – Lucas provocava o Felipe – Que Norberto que nada! Sem maldade, mas eu não encarava…
__ Muito feio, muito feio… Por que será que elas fazem isso? Até assusta um cabelo daqueles… Parece um fantasma!
__ Essa eu vou contar para a Júlia… Dizer que um fantasma platinado se apaixonou por mim… Acho que ela vai gostar da história, e parar com essas coisas…
Pediram a conta – que o Armando pagou – e foram saindo. Trocaram ainda uma piscada maliciosa quando viram um casal aos beijos mais ao fundo, praticamente subindo na mesa. A garçonete percebeu um último olhar de Felipe em sua direção, mas desviou o rosto, entretendo-se com as xícaras. Limpou a mesa com alguma impaciência; chegou até a olhar para o relógio, incomodada. Mas outros fregueses chamavam, e ela logo esqueceu o flerte. Finais de tarde são sempre assim.
Leandro Gonsales Ciccone
(junho de 2009)