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PALIMPSESTOS

Dia de faxina no quartinho de despejo.

Quarto dos fundos de toda casa – e de toda vida.

 

Amontoado poeirento de coisas inúteis e recordações esquecidas.

Parafusos enferrujados, tocos de madeira, lâmpadas queimadas,

Aparas de papel, restos de tinta em latas mal-fechadas,

Brinquedos mutilados, cadernos amarelados,

Recortes de jornal com notícias sem significado…

Fotos de amigos cujo próprio nome já se perdeu;

Mofado VHS para o qual não há mais videocassete

– gravações caseiras de natais bolorentos

e aniversários com tios mortos e primos extraviados –

Antigos rancores, farrapos de lembranças, personagens extintos,

Entulhos imemoriais nos escaninhos da alma;

Sonhos desfeitos, projetos abandonados, amores satisfeitos,

Marcas de pó e imundície nas dobras da experiência.

 

Dia de faxina nos porões da mente.

Hora de sepultar cadáveres, exumar futuros, descartar trambolhos;

Munido de vassoura e balde, lavar as prateleiras da memória,

Abrir espaço para as novas tralhas que hão de vir…

 

Juan Carlos Alargón

agosto de 2011

AUTO-ENGANO

Que se imponha o prazer, que impere o desejo!

Que o viver seja um triunfo absoluto de gozos e vontades

Saciadas e inflamadas (sem exaurir-se jamais) por algum generoso demônio,

Pleno de misericórdia para com nossa torpe humanidade

 

Que se abandone a culpa como quem lança de si um fardo

Que se idolatre o pecado em suas formas mais imundas

- gula, avareza, lascívia, vaidade, inveja, estupor -

Restando à ilusão do Próximo tão-somente as paixões iracundas

 

Que a Morte se imponha sobre a Vida!

Que lançadas sejam às chamas as derradeiras quimeras

Rompidos os tênues laços com a bestialidade reprimida…

 

Mas por poucos instantes essa ilusão perdura;

Logo o devaneio se dissipa, e se enrijece a certeza

Do quanto a consciência é o limiar da loucura…

 

 

Leandro Gonsales Ciccone

26 de junho de 2010

MENINA

Não chores, menina

Pois o amor foi maior que o pranto

Pois o amor será maior que o desencanto

Pois o amor é todo teu

 

Não chores, menina

Pois todo amor foi maior que teu pranto

Pois todo amor será maior que teu desencanto

Pois meu amor é todo teu

 

Não chores, menina

Pois meu amor foi maior que qualquer pranto

Pois meu amor será maior que qualquer desencanto

Pois não há amor maior que o meu

 

Cláudio de Lima

(Leandro Gonsales Ciccone)

maio de 2011

 

FORJA

Frágil minério em composto impuro

Lançado ao calor mais intenso das chamas ardentes

Qual parcela de lava, em mãos do mestre obscuro,

Num cadinho resfriado em meio aos vapores volentes;

 

Firmes tenazes hão de levar ao fogo o produto ingente

E rudes marteladas repercutir-lhe-ão em incandescência;

N’água mergulhado, de novo macerado, até que a resistência

Acrisolada, enfim, liberte o metal candente.

 

Pronto então estará a realizar sua sina:

Relhos de arado, blocos de martelo, espadas cortantes;

Servirá aos homens conforme a têmpera conseguida…

 

Ei-nos na forja do mundo, dolorosa oficina,

Onde se depura a matéria de que se fazem os gigantes:

O caráter – fagulha dos deuses aos homens, centelha enobrecedora da vida.

 

Leandro Gonsales Ciccone

22 de maio de 2011

WALTONS

Talvez a coisa mais difícil em amadurecer seja a perda da inocência. Coisas que um dia fizeram sentido, criaram inquietas expectativas, trouxeram ternas alegrias – coisas que se perderam nas lembranças de infância. Das noites de Natal aos dias de aniversário, do primeiro dia de férias aos desenhos animados das manhãs de sábado… Cada um de nós guarda consigo fragmentos dessas sensações; cheiros, músicas, imagens, objetos… Um bolinho foi o suficiente para que Proust começasse as mais de duas mil páginas de Em Busca do Tempo Perdido; a Sonata a Kreutzer de Beethoven foi o mote para uma das mais inspiradas pequenas novelas de Tolstoi. Um cheiro percebido de passagem na rua pode nos levar de volta à casa dos avós; a abertura do desenho favorito, revista no YouTube, desafiará por uns instantes a jornada do tempo…

No meu caso, a lembrança de infância está no final dos episódios de um seriado de televisão dos anos 1970; família grande e típica, os pequenos conflitos de praxe, as rusgas entre irmãos… Cada episódio terminava com a família deitada, desejando-se boa noite de suas camas: “boa noite, papai”; “boa noite, mamãe”; “boa noite, John Boy”; “boa noite, Mary Ellen”… Quando eu era bem pequeno, minha família fazia a mesma coisa. Deitado, de pijama, com um travesseiro de leõezinhos, gritava um “boa noite, Mary Ellen” aos meus pais, e recebia de volta um “boa noite, John Boy”. Uma espécie de ritual do adormecer. O sono vinha quase que imediatamente, leve, sem os problemas trazidos pelas calças compridas e os cabelos brancos. Aquele “boa noite, John Boy” me traz a memória imediata de sonhos que já perdi, de vozes que já não posso mais ouvir. Convencionamos chamar essas pequenas coisas de felicidade.

Noite dessas, depois de consumar a alegria dos adultos (numa daquelas sessões inspiradas que às vezes abençoam os mortais…), quando minha atual senhora se aninhou comigo para dormir, fui tomado de um estado de satisfação imensa, como havia muito não sentia. Por uns instantes, as agruras e angústias desapareceram; naquele abraço um tanto exausto, senti que o meu coração rejuvenescera vários anos. Peguei-me sorrindo, genuinamente feliz, e não pude resistir: beijei-lhe os cabelos, abracei-a um pouco mais, e murmurei em seu ouvido o meu “boa noite, Mary Ellen”.

Mas a resposta não foi o meu “boa noite, John Boy”. Quando ouvi o clique do abajur, já estava arrependido:

__ Quem é essa Mary Ellen ????

Nem me atrevi a tentar explicar. Apenas fechei os olhos, enquanto a memória se evanescia sob uma torrente de palavras já incompreensíveis. Devo ter cochilado; preciso esperar que ela volte a falar comigo para descobrir…

Otávio de Alencar

abril de 2011

(Leandro Gonsales Ciccone)

OURIVES

Há coisa de dois ou três dias, vagava solitário e meditativo pelas alamedas de Montparnasse, quando cruzei com duas jovenzinhas risonhas de ar sonhador, tagarelando alegremente diante da vitrine de uma joalheria. Aos seus olhos, refulgia um conjunto de colar, bracelete e brincos de ouro com safiras, magnético o bastante para seduzir mulheres de todas as idades e condições. Em meio a seus risinhos nervosos, percebi que fantasiavam a história daquelas jóias, supondo-as como alguma herança de família, obra de mestres parisienses de antanho, consignada àquele joalheiro por alguma herdeira de velha linhagem e parcos recursos, arruinada pela Revolução… Suspiravam, imaginando um rapaz que delas se enamorasse e lhes trouxesse aquele mimo como prova de afeição… Não pude deixar de sorrir, fosse pela fantasia em si ou por sua impropriedade; e tão logo as mocinhas se afastaram, aproximei-me daquela vitrine. Reconheci o tipo de trabalho e de acabamento; imediatamente lembrei-me de um lugar onde vira uma peça praticamente igual àquela, numa loja em Marselha, onde o joalheiro bonachão se entretivera a contar-me seu percurso e suas origens.

Essa lembrança me trouxe de volta a sensação de uma brisa salgada, fez-me cruzar o azul do Mediterrâneo na direção da Gibraltar britânica, trouxe-me na amurada de um veleiro qualquer os ventos cálidos que sopram sobre os viajantes as areias imemoriais do majestoso Saara. Em seu extremo atlântico, em terras do sultão do Marrocos, vi-me num porto fervilhante de vida, numa imensa medina cercada de pequenos cubículos atulhados de panos e vasilhas, incensos e louças, perfumes e especiarias, ébanos e marfins, em meio a uma algaravia de cores e vozes, aromas e sabores. Na mesquita ao fundo, grandiosa em sua solidez e em seus ladrilhos geométricos, debruçado sobre o minarete, o muezzim iniciava o chamado à oração – e de súbito, como que por encanto, a algaravia cessava por completo, pequenos tapetes surgiam de todas as partes, os homens debruçavam-se piedosos e a vasta praça era tomada por um uníssono de vozes graves soando submissas. Em minutos, as preces se extinguiam e a vida retomava seu curso, e os sentidos voltavam a mergulhar naquele caos de impressões.

Mas logo transportei-me da balbúrdia da medina para as ruelas estreitas que se ocultavam em meio aos cubículos; segui muito rente a suas construções singelas em tons de ocre, por onde circulavam pessoas apressadas, carregando bilhas de água, cestos com tâmaras e figos, pães sem fermento e bolos apetitosos. Do interior das casas simples vinha o som de conversas e risos de crianças, o aroma forte de chá ou café frescos, e de tabaco consumido em conjunto, em narguilés de vidro e louça, por homens em túnicas de seda instalados sobre tapetes. Segui aqueles caminhos tortuosos, desviando dos cestos e dos panos deixados nos parapeitos das janelas; passei sob arcos de tijolos de terra e sob plantas que se derramavam de seus vasos nas pequenas sacadas, até chegar enfim a um daqueles pequenos conjuntos de porta e janela, ao rés do chão, com seu interior velado por um cortinado de tule. Numa bancada revestida em pedra, voltada para um pátio interior que tinha uma pequena fonte e um jardim, acomodado em almofadas sobre um banco, iluminado por duas ou três lamparinas de azeite, diante de um pequeno fogareiro, cercado de delicadas ferramentas, ali estava o ourives. Diante de si, pequenas barras de ouro e prata, que aquecia num cadinho e malhava cuidadosamente sobre a mesa de pedra; ao seu lado, rubis, topázios, minúsculos diamantes, safiras, ainda brutas, latentes da beleza que apenas os olhos do artífice podiam ver, e que caberia a suas mãos revelar. Absolutamente alheio a tudo o que o cercava, ao ruído incessante das ruas, às conversas das pessoas, ao próprio murmurar da fonte – e aos meus passos por detrás de si – seguia mergulhado em seu labor, cinzelando o metal, lapidando as pedrarias, compondo conjuntos que impressionavam pelo brilho, e ainda mais pela arte. O tapete de oração aos seus pés mostrava que apenas a voz do muezzim podia romper a sua concentração; um prato com damascos e um bocado de peixe seco negligentemente disposto a um canto de seu banco talvez constituísse o seu desjejum. Trabalhava indiferentemente ao destino de suas obras; pouco lhe parecia incomodar que suas jóias se ocultassem sobre o véu de uma donzela maometana ou que ornassem o colo de uma dama cristã. Alheava-se mesmo de si, sem um instante de vacilação, movido por uma espécie de força interior que parecia lhe ditar exatamente cada pequeno corte, repuxo, gesto. À sua esquerda, já lá se encontravam prontos os brincos da vitrine em Montparnasse…

Quando dei por mim, cismava inconsciente diante daquela vitrine, sem saber dizer quanto tempo se passara. A alguns passos, outro par de mocinhas palradoras cochichava entre risinhos, perguntando a quem poderia eu presentear com aquelas jóias (uma esposa? talvez, oh, uma amante?!…)…

Afastei-me também sorrindo. Deixei que aqueles objetos começassem com elas uma nova espécie de aventura; afinal, quem sabe o que se passa pelo espírito dos transeuntes diante de uma vitrine?

Emmanuel de Notredame

junho de 1821

(Leandro Gonsales Ciccone)

AMORE

Amei. E amei muito.

No passado.

 

Amei porque o amor me envolveu

(Derrubou-me, na verdade…)

Mostrou-me que havia algo mais possível,

Crível, sensível,

Nesse mundo que se divide em dois:

Derrotados e perdedores.

Mas veio a desilusão.

Veio a morte dos sonhos, o fim de tudo o que era

E não foi mais.

E eu?

Continuei amando.

Porque, afinal, também no amor se perde.

 

Continuei amando porque o amor é forte

E não se deixa derrubar tão fácil

Têm fôlego e se revigora

Renova-se como a alternância das estações.

Mas veio a solidão

Veio a morte dos ideais, o caos no pensamento

Que não era capaz de compreender nada

E eu?

Continuei amando.

Porque, afinal, também no amor se aprende.

 

Continuei amando porque o sol nasce,

O pássaro canta, a estrela brilha,

A criança ri, o riacho caminha

E se torna um grande rio.

Mas veio o mundo, e tentou me confundir

Tapou meus olhos, para que não entendesse

Meus lábios, para que não me envolvesse

Meu coração, para que não ouvisse.

E eu?

Continuei amando.

 

Continuei amando.

Como nunca.

Mas nem eu mesmo sei mais por quê.

Cláudio de Lima

janeiro de 2010

RETORNOS

Anos de lutas ingentes contra os elementos

Contra obstáculos desmedidos

Tantas vezes contra si mesmo

E ei-nos de volta à mesma angústia…

Outros são os tempos, melhores as circunstâncias

Fortalecido vai o espírito pela experiência

Mas a ironia não lhe escapa.

Soubesse que depois de tantas fadigas e perigos

Voltaria ao oceano mais uma vez só

Talvez não se tivesse demorado tanto no cais

À espera de tripulantes que afinal não vieram.

Já os passageiros de novo se acomodam

E o exausto capitão volta ao leme,

Mais uma vez rumo ao imponderável.

Siga viagem, marujo!

Resista às tormentas o melhor que possas

- não mais enrouqueças clamando por braços que inexistem;

Usa os teus próprios – e se não bastarem

Desembarca em segurança aqueles que levas

Para poderes te entregar ao mar como viestes…

Leandro Gonsales Ciccone

fevereiro de 2009

ESTAÇÕES

Que a sucessão costumeiras das estações

Não nos passe despercebida nesse novo ano;

Que as sensações sejam plenas, que o tempo sofreie seu ímpeto,

Que os alternares dos climas se façam sentir além do guarda-roupa…

Que a tepidez do verão acalente nossos gostares

Que a luz radiosa das manhãs nos inspire à ação

Que o frescor das tardes nos encontre entre amigos

A contemplar risonhos os úmidos nublares

            Que a gravidade do outono modere nossos quereres

            Que as sementes lançadas ofereçam seus frutos

            Que as dúvidas inconfessadas sejam enfim compreendidas

            E se deixem levar com a brisa fria dos anoiteceres

Que o recolhimento do inverno estimule nossos pensares

Que as xícaras de chá revigorem os ânimos

Que os pratos de sopa sejam sempre partilhados

Pródigos no aquecer o corpo e o coração para os extensos madrugares

            Que a alegria da primavera revele nossos sentires

            Que a profusão das cores e cantos dissipe toda sombra

            Que o renovar de todas as coisas nos encontre entre planos

            A ansiar inquietos pelos poéticos amanheceres

 

Que a sucessão costumeira dos dias

Não nos passe despercebida no novo ano;

Que as oportunidades se aproveitem, que os risos se multipliquem,

Que a vida se torne sonho – e que os sonhos se tornem vida.

Leandro Gonsales Ciccone

dezembro de 2010

MEMÓRIA

Nos porta-retratos que se enfileiram na estante

Nota-se o passar do tempo nos rostos

Nota-se o correr da vida nos olhos

Nota-se – principalmente – as ausências

Vidas que já lograram a iniqüidade do Tempo

Ausências sentidas, melancólicas lembranças,

Testemunhos de nossa inelutável humanidade

Mas cuja natureza mais profunda (generosa Memória)

Lembra-nos que a ternura é o domínio da eternidade.

 

Leandro Gonsales Ciccone

novembro de 2010

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