A Marquesa de Palais-Mason caminhava pelo jardim, abstraída, aproveitando o frescor da noite. Fazia um calor sufocante, apesar de ainda ser abril, e o baile da Duquesa de Provença fervilhava de trôpegos nobres angustiados naqueles dias de 1849. Sangue novo e velho, fortunas reais e imaginárias, tudo se misturava em meio às toaletes apuradas e sobrecasacas puídas. Pensava exatamente no quanto a sua própria situação periclitava; as rendas dominiais só faziam desabar, enquanto os gastos da boa sociedade não paravam de crescer. Não era possível! Criados, carruagens, bailes, vestidos… Nem o maior tesouro de França suportaria aquilo indefinidamente. Malditos burgueses com seu dinheiro fácil… Ela e o marido, aquele basbaque do Jean, estavam já à míngua; devia horrores na modista, e o desclassificado do merceeiro ousara perguntar à criada quando madame acertaria suas contas… Nos bons tempos de mamã essa ousadia iria lhe garantir vinte chibatadas no lombo… Maldita Revolução!
Abanava-se com fúria enquanto pensava e repisava seus dramas pouco edificantes. Mas eis que, de súbito, de uma aléia próxima ao salão, surgiu uma jovem muito bela, risonha e corada, num rico vestido um tanto fora de moda. A Marquesa franziu o cenho, tentando lembrar-se de onde a conhecia… Aquele rosto lhe era familiar… Seria a filha dos Denisot? Não, não era… Quem seria… Mas claro! Era a filha do Maurice, aquele velho avarento! Aquela era a condessinha de Neully, única herdeira de mais de oitocentos mil francos de renda… Sim, era ela mesma, só podia ser ela…
__ Querida, mas que felicidade encontrá-la aqui – cumprimentou-a com untuosidade – Veja se não é uma incrível coincidência, estava pensando agora mesmo em você!
A mocinha enrubesceu, e não sabia bem o que dizer.
__ Mas vamos, não seja tímida, não se lembra de mim? Estivemos juntas no Castelo de Yprès no verão passado… E eu estava mesmo dizendo ao marquês, meu marido, que precisávamos muito procurar a jovem condessa de Neully quando voltássemos a Paris… E conte as novidades, querida; casou-se? Está noiva? – a moça meneava a cabeça, ainda constrangida – Faz bem, minha cara, com essa renda razoável que seu papá lhe deixou é preciso ter mesmo cuidado com os aproveitadores… Espere por mim aqui, sim? Vou procurar o Jean; preciso mostrá-la a ele. Não saia daqui, meu anjo!
Certeira como um raio, a marquesa cruzou o salão e foi encontrar o marido com olhos cobiçosos sobre uma copeira que então preparava a mesa para a ceia. Travou-lhe do braço e o levou para um canapé estofado, onde lhe murmurou quase ao ouvido:
__ Ai, Jean, você não se emenda mesmo… Já não chega aquela camareira que você engravidou dois anos atrás? – o marquês arfava, enfadado – Mas não se preocupe, não é disso que vim falar… Lembra-se da condessinha de Neully que nos apresentaram no verão passado?
__ Setecentos mil francos de renda? Claro que me lembro!
__ Oitocentos, meu amigo, oitocentos… Pois então, acabo de encontrá-la no jardim. Continua solteira, assim como aquele pulha do seu filho… Precisamos desse casamento, Jean! Não quero viver na província com aquelas sitiantes enobrecidas…
__ Sempre uma madrasta em regra, minha querida – o marido cortou-lhe as habituais lamúrias sobre o exílio nas antigas terras da família – Sabes bem que o Dominique não tem muita queda pelas moças… Mas de fato é um partido bom demais para ser desperdiçado…
__ Vamos conversar com ela e convidá-la para a ceia amanhã ou depois…
Arrastou então o marido para o jardim, onde a mocinha sentara-se num banco e parecia admirar as próprias jóias.
__ Aqui está ele, querida, também ficou encantado em vê-la por aqui – a marquesa sentou-se no banco e tomou as mãos da condessinha entre as suas – E decidimos que você ceará conosco depois de amanhã, minha cara. Nem se atreva a recusar. Ficaríamos ofendidíssimos, não é mesmo, Jean? Quero muito que conheças…
Mas o marido mal e mal ouvia o longínquo discurso da megera a quem dera seu nome… Ficara deveras encantado pela condessa. Minha nossa, não se lembrava dela ser tão apetitosa. Deveras, aquele casamento tornava-se uma idéia cada vez melhor… Desde que o casalzinho fosse morar no seu velho palácio… Seus olhos buliçosos corriam-lhe pelo corpete justo, antevendo delícias…
A interminável arenga da marquesa foi interrompida pela chegada da Senhora De Guèrin, que lhe murmurou maliciosa algo ao ouvido.
__ Pode me dar licença um instante, sim, condessa? Esta velha amiga me devia um segredo – e para o marido – Jean, querido, não a deixe fugir!
Nem bem a marquesa se afastara, já o marquês acomodava-se no banco:
__ Se me permite a liberdade, condessa, como uma moça tão linda e tão rica pode ainda estar sozinha? Seu tutor é assim tão severo? Devem-lhe brotar pretendentes às dúzias…
Tentando sorrir, a mocinha trançava as mãos, nervosa.
__ Venha, você está muito tensa, minha cara. Vamos ao salão. Um pouco de ponche vai acalmá-la.
Uma expressão de pânico cruzou o rosto da jovem, que se negou a acompanhá-lo.
__ Prefere esperar por aqui? Seja, então. Já volto com o ponche.
Com passos rápidos, o marquês atravessou o jardim, pensando no motivo daquele susto. Afinal, por que a condessinha não quisera vir ao salão? Suas conjecturas foram interrompidas por uma mão que apertou com firmeza seu braço. Era o velho Barão de Tolbiac, viúvo, seu parceiro habitual de jogo no clube. Sorria-lhe com uma amabilidade um tanto artificial:
__ Mas quem é a pequena beldade que deixaste no jardim, meu caro marquês?
__ A pequena condessa de Neully… Uma pérola, meu amigo, uma pérola…
Entrementes, o barão empalidecera. Parecia agora bastante preocupado.
__ Espero que saibas o que estás fazendo, Jean.
O Marquês de Palais-Mason encarou-o interrogativamente.
__ De fato, não esperavas que essa pequena pérola ainda estivesse livre, não é mesmo? Mas o que talvez desconheças é a identidade de seu sedutor…
__ E quem seria, Michel?
__ O jovem Duque de Padova… Quem mais?
Jean sentiu um calafrio a correr-lhe pela espinha. Aquele garoto irascível já matara quatro em duelo, escândalos abafados pelo bom nome de sua família – e pela largueza de sua bolsa. Num instante compreendeu a palidez do amigo; só podia esperar a morte se o duque desconfiasse sequer de sua tentativa de aproximação da condessinha – já se batera com pistolas por muito menos!
Tolbiac recebeu o firme aperto de mão do marquês, acompanhado de um olhar de gratidão. Enquanto o outro se afastava, murmurou à socapa:
__ Covarde! Poltrão!
E riu com escárnio do nobre arruinado e já velhusco que se afastava assustado. Louvou a própria presença de espírito – lembrar-se do duque de Padova naquele momento fora um golpe de mestre! Só uma coisa superava a lascívia naquele Jean – o medo, o bom e velho medo… Na verdade, nem se lembrava se o colérico duque ainda estava vivo (fatalmente acabaria por morrer num daqueles seus constantes duelos…). De qualquer forma, o caminho estava livre. Como não a vira antes no baile? Toda Paris comentava sobre a condessinha de Neully, apenas dezesseis anos e oitocentos mil francos… Nunca a sua viuvez lhe parecera tão proverbial quanto naquele momento.
Dirigiu-se à jovem, que se levantara e caminhava por entre as alamedas de arbustos e folhagens. Passou por ela com uma simples mesura e aparentou seguir adiante quando seus passos vacilaram e ele pareceu cair. A moça de imediato o apoiou, ajudando-o a sentar-se num banco mais à frente, onde um rapaz trajado com ostensiva elegância fumava um charuto.
__ Muito agradecido, minha jovem – os olhos muito azuis do barão brilhavam intensamente – Deve ter sido um pequeno mal-estar… Mas vejam se não é a nossa pequena condessa de Neully! Que casualidade feliz! E como está, minha querida? Que tem feito, pouco a vimos desde o funeral de seu saudoso pai…
Apesar dos cabelos muito brancos, o barão não era tão velho quanto aparentemente se supunha, e fora muito belo quando jovem. Seu sorriso e seu olhar ainda guardavam muito da passada galanteria. Mas a mocinha, sabendo-se ou não cortejada, parecia de fato inquieta com o desconforto do barão, e dirigiu ao rapaz um semblante ansioso, como que a implorar por ajuda.
__ Há algo que possa fazer pela senhorita? – trocaram olhares, e o rapaz tirou do bolso do colete um lenço de cambraia – Vou molhar este lenço naquela fonte ali adiante, isso deve ajudá-lo a ser recuperar…
Nem havia terminado a frase quando a jovem, muito rapidamente, tomou-lhe o lenço das mãos e correu ela mesma à fonte. Entrementes, o rapaz voltara-se para o barão e, com um sorriso cúmplice, lhe dizia:
__ De fato, graciosíssima… Capaz de fazer vacilar até mesmo um coração mais jovem… Mas acho que não a reconheci…
__ Trata-se da condessinha de Neully – retrucou Tolbiac com azedume, contrariado pela intervenção imprevista.
Uma fulguração quase imperceptível atravessou o rosto do jovem, que voltou a se afastar enquanto dizia:
__ De fato, havia me esquecido… Bem, linda, de qualquer forma… E mesmo com o malogro da fortuna do pai não deixará de ter pretendentes… Sua graça será o seu dote…
__ Malogro? – o barão não escondeu a surpresa.
__ O senhor não soube? Jogo – o rapaz aproximou-se por um instante, vendo a mocinha já retornando da fonte – O velho avarento era afinal viciado nos cavalos, e perdeu quase toda a fortuna na hípica… Aliás, há quem diga que o desgraçado não teve um enfarto; matou-se para fugir dos credores… Pobre menina!
__ Mas eu não soube…
__ Poucos sabem, meu amigo. Um dos segredos mais bem guardados na província; o tutor ainda acredita que poderá casá-la bem, apesar de tudo…
E a jovem retornou, aplicando o lenço úmido sobre a fronte do velho barão, que se mantivera absorto. Depois de uns minutos, dirigiu-se a ela, olhando de soslaio para o rapaz:
__ Obrigado, minha cara. Já me sinto bem melhor. Acho que já vou retornar ao salão… Não, não se incomode, estou bem, vês? Foi um prazer reencontrá-la, afinal – beijou-lhe rapidamente a mão e seguiu rumo ao edifício principal.
Uma certa perplexidade envolvera a moça, que ainda segurava embaraçada o lenço nas mãos. O rapaz despertou-a desse torpor:
__ Permita que eu me apresente, senhorita condessa. Sou o Príncipe Kalítchin, de Kiev; perdoe esse meu francês um tanto rebuscado, mas é que cheguei há pouco em Paris, ainda não tive tempo de me readaptar… – tomou-lhe delicadamente o lenço das mãos – Bonito o seu gesto de cuidado para com o ancião que aqui estava… Seu coração é tão belo quanto o seu rosto…
Enrubescida, com os olhos baixos, ela sequer foi capaz de resistir quando ele tomou suas mãos:
__ Mãozinhas tão frias… Por que estás assustada, minha querida?
Em seu íntimo, o rapaz exultava, reconhecendo na perturbação da moça sinais de um interesse que facilmente poderia se converter em paixão. Sabia-se belo, garboso, sedutor… Já se despedia mentalmente da água-furtada em que vivia, e dos seus golpes sobre nobres solteironas… Enfim, o Príncipe Kalítchin, tão russo quanto um gascão, tiraria a sorte grande! Oitocentos mil francos! Aquela condessinha era a mão mais cobiçada da França – nem acreditava em como fora fácil descartar aquele velhote obtuso…
Mas sua atenção foi chamada por risos vindos da aléia mais atrás; era a Duquesa, anfitriã do baile, que passeava pelo jardim com alguns convidados. Pálida como a morte, a mocinha desvencilhou-se das mãos do jovem vigarista e embarafustou-se jardim adentro na direção oposta, deixando-o atônito e um tanto furioso – mas junto da Duquesa estava a Senhora De Chatelêt, sua ligação naquela noite, e logo precisou impor um sorriso farsesco ao rosto …
E a mocinha correu, apavorada, dando uma imensa volta para poder retornar por outro caminho ao palácio, onde entrou por uma porta de serviço e subiu, aflita, uma estreita escada de madeira, entrando num quartinho um pouco úmido; caiu então sobre a cama, chorando de puro nervosismo e abafando um risinho incontrolável. Livre do perigo, tirou o vestido com cuidado, dobrando-o, e tirou também os brincos e o colar… Deus, se tivesse perdido aqueles brincos… Que loucura! Sua mãe a mataria! E a Duquesa, então? Quase fora pega! Mas tinha sido tão divertido… Condessa! Ora vejam! Ela, condessa… De que mesmo? De Neully… O risinho explodiu numa gargalhada deliciosa e, deitada em sua pobre cama, a criada Geneviève alisava o velho vestido da filha de sua patroa… Condessa! Imagine só…
Leandro Gonsales Ciccone
(novembro de 2009)