Feeds:
Posts
Comentários

CÍRCULOS

A Marquesa de Palais-Mason caminhava pelo jardim, abstraída, aproveitando o frescor da noite. Fazia um calor sufocante, apesar de ainda ser abril, e o baile da Duquesa de Provença fervilhava de trôpegos nobres angustiados naqueles dias de 1849. Sangue novo e velho, fortunas reais e imaginárias, tudo se misturava em meio às toaletes apuradas e sobrecasacas puídas. Pensava exatamente no quanto a sua própria situação periclitava; as rendas dominiais só faziam desabar, enquanto os gastos da boa sociedade não paravam de crescer. Não era possível! Criados, carruagens, bailes, vestidos… Nem o maior tesouro de França suportaria aquilo indefinidamente. Malditos burgueses com seu dinheiro fácil… Ela e o marido, aquele basbaque do Jean, estavam já à míngua; devia horrores na modista, e o desclassificado do merceeiro ousara perguntar à criada quando madame acertaria suas contas… Nos bons tempos de mamã essa ousadia iria lhe garantir vinte chibatadas no lombo… Maldita Revolução!

Abanava-se com fúria enquanto pensava e repisava seus dramas pouco edificantes. Mas eis que, de súbito, de uma aléia próxima ao salão, surgiu uma jovem muito bela, risonha e corada, num rico vestido um tanto fora de moda. A Marquesa franziu o cenho, tentando lembrar-se de onde a conhecia… Aquele rosto lhe era familiar… Seria a filha dos Denisot? Não, não era… Quem seria… Mas claro! Era a filha do Maurice, aquele velho avarento! Aquela era a condessinha de Neully, única herdeira de mais de oitocentos mil francos de renda… Sim, era ela mesma, só podia ser ela…

__ Querida, mas que felicidade encontrá-la aqui – cumprimentou-a com untuosidade – Veja se não é uma incrível coincidência, estava pensando agora mesmo em você!

A mocinha enrubesceu, e não sabia bem o que dizer.

__ Mas vamos, não seja tímida, não se lembra de mim? Estivemos juntas no Castelo de Yprès no verão passado… E eu estava mesmo dizendo ao marquês, meu marido, que precisávamos muito procurar a jovem condessa de Neully quando voltássemos a Paris… E conte as novidades, querida; casou-se? Está noiva? – a moça meneava a cabeça, ainda constrangida – Faz bem, minha cara, com essa renda razoável que seu papá lhe deixou é preciso ter mesmo cuidado com os aproveitadores… Espere por mim aqui, sim? Vou procurar o Jean; preciso mostrá-la a ele. Não saia daqui, meu anjo!

Certeira como um raio, a marquesa cruzou o salão e foi encontrar o marido com olhos cobiçosos sobre uma copeira que então preparava a mesa para a ceia. Travou-lhe do braço e o levou para um canapé estofado, onde lhe murmurou quase ao ouvido:

__ Ai, Jean, você não se emenda mesmo… Já não chega aquela camareira que você engravidou dois anos atrás? – o marquês arfava, enfadado – Mas não se preocupe, não é disso que vim falar… Lembra-se da condessinha de Neully que nos apresentaram no verão passado?

__ Setecentos mil francos de renda? Claro que me lembro!

__ Oitocentos, meu amigo, oitocentos… Pois então, acabo de encontrá-la no jardim. Continua solteira, assim como aquele pulha do seu filho… Precisamos desse casamento, Jean! Não quero viver na província com aquelas sitiantes enobrecidas…

__ Sempre uma madrasta em regra, minha querida – o marido cortou-lhe as habituais lamúrias sobre o exílio nas antigas terras da família – Sabes bem que o Dominique não tem muita queda pelas moças… Mas de fato é um partido bom demais para ser desperdiçado…

__ Vamos conversar com ela e convidá-la para a ceia amanhã ou depois…

Arrastou então o marido para o jardim, onde a mocinha sentara-se num banco e parecia admirar as próprias jóias.

__ Aqui está ele, querida, também ficou encantado em vê-la por aqui – a marquesa sentou-se no banco e tomou as mãos da condessinha entre as suas – E decidimos que você ceará conosco depois de amanhã, minha cara. Nem se atreva a recusar. Ficaríamos ofendidíssimos, não é mesmo, Jean? Quero muito que conheças…

Mas o marido mal e mal ouvia o longínquo discurso da megera a quem dera seu nome… Ficara deveras encantado pela condessa. Minha nossa, não se lembrava dela ser tão apetitosa. Deveras, aquele casamento tornava-se uma idéia cada vez melhor… Desde que o casalzinho fosse morar no seu velho palácio… Seus olhos buliçosos corriam-lhe pelo corpete justo, antevendo delícias…

A interminável arenga da marquesa foi interrompida pela chegada da Senhora De Guèrin, que lhe murmurou maliciosa algo ao ouvido.

__ Pode me dar licença um instante, sim, condessa? Esta velha amiga me devia um segredo – e para o marido – Jean, querido, não a deixe fugir!

Nem bem a marquesa se afastara, já o marquês acomodava-se no banco:

__ Se me permite a liberdade, condessa, como uma moça tão linda e tão rica pode ainda estar sozinha? Seu tutor é assim tão severo? Devem-lhe brotar pretendentes às dúzias…

Tentando sorrir, a mocinha trançava as mãos, nervosa.

__ Venha, você está muito tensa, minha cara. Vamos ao salão. Um pouco de ponche vai acalmá-la.

Uma expressão de pânico cruzou o rosto da jovem, que se negou a acompanhá-lo.

__ Prefere esperar por aqui? Seja, então. Já volto com o ponche.

Com passos rápidos, o marquês atravessou o jardim, pensando no motivo daquele susto. Afinal, por que a condessinha não quisera vir ao salão? Suas conjecturas foram interrompidas por uma mão que apertou com firmeza seu braço. Era o velho Barão de Tolbiac, viúvo, seu parceiro habitual de jogo no clube. Sorria-lhe com uma amabilidade um tanto artificial:

__ Mas quem é a pequena beldade que deixaste no jardim, meu caro marquês?

__ A pequena condessa de Neully… Uma pérola, meu amigo, uma pérola…

Entrementes, o barão empalidecera. Parecia agora bastante preocupado.

__ Espero que saibas o que estás fazendo, Jean.

O Marquês de Palais-Mason encarou-o interrogativamente.

__ De fato, não esperavas que essa pequena pérola ainda estivesse livre, não é mesmo? Mas o que talvez desconheças é a identidade de seu sedutor…

__ E quem seria, Michel?

__ O jovem Duque de Padova… Quem mais?

Jean sentiu um calafrio a correr-lhe pela espinha. Aquele garoto irascível já matara quatro em duelo, escândalos abafados pelo bom nome de sua família – e pela largueza de sua bolsa. Num instante compreendeu a palidez do amigo; só podia esperar a morte se o duque desconfiasse sequer de sua tentativa de aproximação da condessinha – já se batera com pistolas por muito menos!

Tolbiac recebeu o firme aperto de mão do marquês, acompanhado de um olhar de gratidão. Enquanto o outro se afastava, murmurou à socapa:

__ Covarde! Poltrão!

E riu com escárnio do nobre arruinado e já velhusco que se afastava assustado. Louvou a própria presença de espírito – lembrar-se do duque de Padova naquele momento fora um golpe de mestre! Só uma coisa superava a lascívia naquele Jean – o medo, o bom e velho medo… Na verdade, nem se lembrava se o colérico duque ainda estava vivo (fatalmente acabaria por morrer num daqueles seus constantes duelos…). De qualquer forma, o caminho estava livre. Como não a vira antes no baile? Toda Paris comentava sobre a condessinha de Neully, apenas dezesseis anos e oitocentos mil francos… Nunca a sua viuvez lhe parecera tão proverbial quanto naquele momento.

Dirigiu-se à jovem, que se levantara e caminhava por entre as alamedas de arbustos e folhagens. Passou por ela com uma simples mesura e aparentou seguir adiante quando seus passos vacilaram e ele pareceu cair. A moça de imediato o apoiou, ajudando-o a sentar-se num banco mais à frente, onde um rapaz trajado com ostensiva elegância fumava um charuto.

__ Muito agradecido, minha jovem – os olhos muito azuis do barão brilhavam intensamente – Deve ter sido um pequeno mal-estar… Mas vejam se não é a nossa pequena condessa de Neully! Que casualidade feliz! E como está, minha querida? Que tem feito, pouco a vimos desde o funeral de seu saudoso pai…

Apesar dos cabelos muito brancos, o barão não era tão velho quanto aparentemente se supunha, e fora muito belo quando jovem. Seu sorriso e seu olhar ainda guardavam muito da passada galanteria. Mas a mocinha, sabendo-se ou não cortejada, parecia de fato inquieta com o desconforto do barão, e dirigiu ao rapaz um semblante ansioso, como que a implorar por ajuda.

__ Há algo que possa fazer pela senhorita? – trocaram olhares, e o rapaz tirou do bolso do colete um lenço de cambraia – Vou molhar este lenço naquela fonte ali adiante, isso deve ajudá-lo a ser recuperar…

Nem havia terminado a frase quando a jovem, muito rapidamente, tomou-lhe o lenço das mãos e correu ela mesma à fonte. Entrementes, o rapaz voltara-se para o barão e, com um sorriso cúmplice, lhe dizia:

__ De fato, graciosíssima… Capaz de fazer vacilar até mesmo um coração mais jovem… Mas acho que não a reconheci…

__ Trata-se da condessinha de Neully – retrucou Tolbiac com azedume, contrariado pela intervenção imprevista.

Uma fulguração quase imperceptível atravessou o rosto do jovem, que voltou a se afastar enquanto dizia:

__ De fato, havia me esquecido… Bem, linda, de qualquer forma… E mesmo com o malogro da fortuna do pai não deixará de ter pretendentes… Sua graça será o seu dote…

__ Malogro? – o barão não escondeu a surpresa.

__ O senhor não soube? Jogo – o rapaz aproximou-se por um instante, vendo a mocinha já retornando da fonte – O velho avarento era afinal viciado nos cavalos, e perdeu quase toda a fortuna na hípica… Aliás, há quem diga que o desgraçado não teve um enfarto; matou-se para fugir dos credores… Pobre menina!

__ Mas eu não soube…

__ Poucos sabem, meu amigo. Um dos segredos mais bem guardados na província; o tutor ainda acredita que poderá casá-la bem, apesar de tudo…

E a jovem retornou, aplicando o lenço úmido sobre a fronte do velho barão, que se mantivera absorto. Depois de uns minutos, dirigiu-se a ela, olhando de soslaio para o rapaz:

__ Obrigado, minha cara. Já me sinto bem melhor. Acho que já vou retornar ao salão… Não, não se incomode, estou bem, vês? Foi um prazer reencontrá-la, afinal – beijou-lhe rapidamente a mão e seguiu rumo ao edifício principal.

Uma certa perplexidade envolvera a moça, que ainda segurava embaraçada o lenço nas mãos. O rapaz despertou-a desse torpor:

__ Permita que eu me apresente, senhorita condessa. Sou o Príncipe Kalítchin, de Kiev; perdoe esse meu francês um tanto rebuscado, mas é que cheguei há pouco em Paris, ainda não tive tempo de me readaptar… – tomou-lhe delicadamente o lenço das mãos – Bonito o seu gesto de cuidado para com o ancião que aqui estava… Seu coração é tão belo quanto o seu rosto…

Enrubescida, com os olhos baixos, ela sequer foi capaz de resistir quando ele tomou suas mãos:

__ Mãozinhas tão frias… Por que estás assustada, minha querida?

Em seu íntimo, o rapaz exultava, reconhecendo na perturbação da moça sinais de um interesse que facilmente poderia se converter em paixão. Sabia-se belo, garboso, sedutor… Já se despedia mentalmente da água-furtada em que vivia, e dos seus golpes sobre nobres solteironas… Enfim, o Príncipe Kalítchin, tão russo quanto um gascão, tiraria a sorte grande! Oitocentos mil francos! Aquela condessinha era a mão mais cobiçada da França – nem acreditava em como fora fácil descartar aquele velhote obtuso…

Mas sua atenção foi chamada por risos vindos da aléia mais atrás; era a Duquesa, anfitriã do baile, que passeava pelo jardim com alguns convidados. Pálida como a morte, a mocinha desvencilhou-se das mãos do jovem vigarista e embarafustou-se jardim adentro na direção oposta, deixando-o atônito e um tanto furioso – mas junto da Duquesa estava a Senhora De Chatelêt, sua ligação naquela noite, e logo precisou impor um sorriso farsesco ao rosto …

E a mocinha correu, apavorada, dando uma imensa volta para poder retornar por outro caminho ao palácio, onde entrou por uma porta de serviço e subiu, aflita, uma estreita escada de madeira, entrando num quartinho um pouco úmido; caiu então sobre a cama, chorando de puro nervosismo e abafando um risinho incontrolável. Livre do perigo, tirou o vestido com cuidado, dobrando-o, e tirou também os brincos e o colar… Deus, se tivesse perdido aqueles brincos… Que loucura! Sua mãe a mataria! E a Duquesa, então? Quase fora pega! Mas tinha sido tão divertido… Condessa! Ora vejam! Ela, condessa… De que mesmo? De Neully… O risinho explodiu numa gargalhada deliciosa e, deitada em sua pobre cama, a criada Geneviève alisava o velho vestido da filha de sua patroa… Condessa! Imagine só…

Leandro Gonsales Ciccone

(novembro de 2009)

VERITAS

Dama de alvas vestes, resplendentes,

Cuja forma apenas divisamos em meio à bruma

Num mundo que já abandonou a ilusão de buscar-te

Tu és, Verdade, o único farol que ainda nos pode guiar,

Pelas trevas dessa estrada de janelas cerradas

– cada choupana com sua lâmpada, onde há quem se esconda do medo,

Procurando iluminar seus próprios desvãos sombrios…

Aclara-nos, ó Verdade, para que não tropecemos!

Multiplica aqueles que com frágeis candeeiros ainda vagam pelas ruas

Tentando convencer os homens que há noites mais escuras…

 

Nem sempre o que encontraremos sob a luz nos haverá de alentar

– mas que nada repouse em oculto, para que ninguém sofra em silêncio!

Que nossas vozes se unam, exorcizando os fantasmas,

Livrando a noite de seus perigos…

Quanto já não tateamos em falso, procurando saídas,

Tentando reconhecer nos rostos traços de afeto

– quantos não teríamos abraçado, se ao menos pudéssemos ter tocado

Com a ponta dos dedos alguma lágrima inconfessada…

Que a luz se faça, para nos reconhecermos no outro,

Que a estrada se ilumine com a soma de nossos lumes…

          

            Ajuda-nos, Verdade, a defender-te

            Contra todos os moralismos, cretinismos, truísmos, egoísmos…

            Ajuda-nos a servir-te

            Mesmo em meio à mesquinhez e perfídia.

            Ajuda-nos, enfim, a encontrar-te

            Ainda que nublada, fugidia,

            Nos olhos daqueles que nos cercam

            Revelada em tua forma mais pura. 

Leandro Gonsales Ciccone

03 de outubro de 2009

 

CHAPÉU E CHUVA

Há dias em que a minha viuvez recente torna-se especialmente triste. Vago, então, sem rumo, por esta casa onde vivemos toda uma vida e que, agora, parece imensa… e vazia. Ah, Izilda, quanta falta me fazes…

Numa tarde dessas, movido por não sei que instinto – a solidão, certamente – peguei as fotos antigas e envolvi meu espírito em recordações. Fui longe, muito longe mesmo. E uma foto amarelada de um jovem casal risonho levou-me de volta a uma tarde de chuvisco de setembro de 1938. Eu tinha então dezenove anos, era caixeiro da marcenaria de meu pai, e corria à agência do Banespa, onde precisava realizar um pagamento qualquer…

Como era diferente aquela São Paulo de fins dos anos 1930! Vivíamos o Estado Novo, o mundo caminhava para a Segunda Guerra, a metrópole crescia ano após ano… Tempos de incerteza e pessimismo, grandes preocupações e inquietudes… São Paulo não podia parar, com seus chapéus e bengalas, bondes e cafés…

Bom, saudosismos à parte, lá ia eu para o banco, com a saúde e a energia próprias da juventude, quando avistei, junto de sua mãe, uma linda moça. Que moça! Reduzi a marcha e comecei a observá-la, tão discretamente quanto meu encantamento permitiu. Tão linda! Ali, meiga e risonha, a acompanhar a mãe num passeio… Há coisas que nós, pobres mortais, não alcançamos compreender. O amor é uma delas. Jamais pude entender o porquê, mas naquele momento meu coração bateu mais forte, meus lábios ficaram secos e meus olhos se nublaram de mansinho. Ainda que um bom médico pudesse diagnosticar arritmia, não sei o que me sucedeu; apenas sei que, ali, na Praça Ramos de Azevedo, quase em frente ao Teatro Municipal, conheci o grande amor da minha vida, minha futura esposa, minha querida Izilda…

E jamais pude esquecer aquele rostinho lindo… Cabelos longos sobre os ombros, negros, emoldurando um sorriso tão maravilhoso como eu nunca vira antes em toda a minha vida. Talvez tenha sido o sorriso que me cativou; talvez tenham sido aqueles olhos esverdeados, dum brilho precioso de jóia… Talvez tenha sido aquela chuvinha fina que caía incessantemente e me inspirava a dançar… Nunca saberei explicar, mas naquele instante descobri o amor, e esqueci-me da vida, de mim, da marcenaria, do meu pai, do banco… Ai, o banco!

Aquela lembrança trouxe-me de volta à realidade. O banco! Ai de mim se não pagasse aquela conta! O velho seu Emillio me transformaria em pudim! Corri, tentando ver se ainda havia tempo para cumprir minha missão, mas sem tirar os olhos de minha amada. O resultado disso é bastante previsível: não tinha dado dois largos passos quando colidi com uma gorda senhora, cheia de embrulhos, que também ia apressada. Que trombada! Embrulhos para um lado, gorducha para o outro, e Hernane esparramado pelo chão, um verdadeiro saco de batatas… Ainda não tinha me recuperado da brutal colisão, sob uma rajada de impropérios da rechonchuda senhora, quando sofri o que imaginava ser a suprema humilhação de minha vida: a linda moça que me conquistara o coração ria gostosamente de minha trapalhada…

Apaixonados amigos, não há nada pior do que ver aquele ser que se ama rindo-se de nós. Dorido algoz da alma, riso cruel que nos estraçalha o coração… E enquanto minha cabeça rodava violentamente – tanto pelo tombo quanto pela vergonha – não senti que alguém se aproximava de mim. Quando dei pela coisa, minha linda moça estava ali, ao meu lado, ainda a rir com delícia. Tinha em suas mãos o meu chapéu, que fora lançado longe com o impacto.

Sem saber o que fazer, com o coração descompassado, comecei a ajudar a senhora com os seus pacotes. Um pouco mais calma, ela finalmente pôs-se de pé, e ainda exclamou para minha doce amada antes de ir embora:

__ Filha, muito cuidado com esse seu namorado. É um paspalhão!

Namorado? Namorado? Por Deus, apesar daquela descortês alcunha que me dera a gorducha, tive mesmo ganas de beijar aquelas polpudas bochechas… Namorado! Ah, podia morrer… Namorado!

Só então voltei-me para minha bela, que enrubescera terrivelmente. Estava tão leve que tive mesmo coragem de falar-lhe:

__ Muito obrigado, linda senhorita – e tomei, delicadamente, o chapéu de suas mãos.

Ora, chovia agora com mais intensidade, e minha querida estivera segurando o chapéu ao contrário. Quando o coloquei na cabeça, foi como se tomasse um banho – estava cheio de água! A moça explodiu numa gargalhada tão espontânea que eu mesmo me vi obrigado a rir também. E ficamos assim um instante, rindo ambos, debaixo de uma chuva que apertara um pouco mais, enquanto uns filetes d’água ainda escorriam do chapéu pelo meu rosto.

A mãe de minha risonha amada aproximou-se de nós, também sorrindo. Acabei por lhes oferecer o braço, e saímos caminhando alegres sob a chuva. Ao chegarmos ao ponto do bonde, acabei, sem pensar, acompanhando-as até a Mooca, onde moravam. Começamos, então, a conversar como velhos conhecidos. De quando em quando, via aquela moça com os olhos postos em mim – olhares acompanhados sempre por um sorriso, que a princípio era um tanto matreiro, mas foi se tornando mais sutil, mais carinhoso…

Enfim chegamos. Ainda levei-as até o portão de sua casa. A mãe de Izilda já atravessava o pequeno jardim e a moça, na porta, hesitava em despedir-se. Ficamos uns segundos em silêncio, e quando resolvemos falar, falamos juntos:

__ Bem, foi um prazer…

E rimos, também juntos. Encabulada, ela prosseguiu:

__ Foi um prazer, senhor…

__ Hernane. Hernane Caruso – e tomei de sua mão, beijando-a ternamente.

__ Izilda! – chamou-lhe a mãe.

__ Adeus, senhor Hernane – disse minha querida, já indo embora – Apareça! – acrescentou sorrindo.

__ Até muito breve, senhorita! – gritei-lhe eu, saindo então radiante pela rua, para tomar o bonde.

Desnecessário dizer duas coisas: meu pai sovou-me sem piedade naquela noite (maldito banco!) e, dali por diante, tornei-me assíduo na rua de Izilda, passando sempre antes pela roseira de uma praça ali ao lado…

Il amore, il amore, ragazzo innamoratto…

Hernane Caruso                 novembro de 1996 – setembro de 2009

(Leandro Gonsales Ciccone)

CÉTICO

Nunca acreditei nessas bobagens de religião.

Sempre fui um ateu convicto. Minha única fé, digamos assim. Não fazia o menor sentido imaginar um ancião de barbas brancas, sentado numa nuvem, governando os destinos dos homens como quem brinca com bonecos. Desde pequeno, chocava minhas tias, solteironas beatas que chegaram a pensar que eu era um possuído… Para proverbial frustração daquelas harpias, o padre recusou-se a fazer um exorcismo – e olhe que elas se ofereceram para pagar a troca de todos os bancos da igreja… Quando garoto, ainda não tinha conhecimentos nem audácia suficiente para arrostar minha mãe, minha avó e essas tias malditas; fui forçado a fazer a tal catequese. Dois longos anos de suplício, tentativas de fuga, blasfêmias no sinal-da-cruz e uma versão picaresca do creio-em-deus-pai… No dia da primeira comunhão, missa solene, a velharada toda reunida na primeira fila, não tive dúvida: mastiguei a hóstia todinha – e de boca aberta. Foi um escândalo! Minha mãe sovou-me sem piedade, em meio às minhas gargalhadas.

Ainda tiveram a petulância de tentar me coagir à tal da crisma. Mas, com quinze anos, já era impossível deter minha crueldade adolescente; depois de fugir das duas primeiras aulas, na terceira tentativa – sob vigilância pessoal de minha mãe – interrompi o padre para lhe perguntar quantas vezes ele se masturbava por dia. Sob a algazarra de trinta pequenos pervertidos, fui expulso aos trambolhões por um velhote colérico, roxo de ódio, que excomungou a mim e aos meus descendentes com uma devoção muito católica. Dali por diante, minha mãe e suas comparsas desistiram – aliás, tiveram inclusive que mudar de igreja…

Livre, finalmente, pude me dedicar ao ateísmo sem peias. Sem muita disposição para o estudo, larguei o colégio e comecei a trabalhar. Acabei dono de uma loja de ferragens. E famoso. Todos os moleques debochados da vizinhança adoravam reunir-se no meu balcão, onde eu lhes pregava minha sã doutrina. Vez por outra apareciam concorrentes – uma freira jovenzinha fugiu aos prantos quando lhe perguntei se realmente não ia querer ter filhos, atender ao humaníssimo apelo da maternidade; um pastor falastrão ousou insinuar que eu seria filho do capeta (batedor de carteiras nenhum pode ofender minha mãe, eu lhe demonstrei com bons modos e um soco que lhe custou dois dentes). Esse meu apostolado juvenil reduziu-se somente depois de um episódio repulsivo. Numa madrugada, quatro desses garotos estavam espancando um mendigo na praça em frente à minha casa; não tive dúvidas; peguei um bom toco de madeira que sempre deixo atrás da porta e sovei-os com a delicadeza de quem expulsa os vendilhões do Templo. O episódio ficou famoso. Quiseram entrevistar-me para o jornal do bairro, ao mesmo tempo em que os pais dos garotos tentavam processar-me por agredi-los. Convidei esses pais para uma boa conversa com meus punhos, mas infelizmente não quiseram atender-me. E tudo piorou quando aquele mendigo alcagüete contou para a repórter que ele e mais oito jantavam todas as noites na minha casa. Tive que esgotar meu repertório de palavrões muitas vezes até que decidissem me deixar em paz.

Mas esse sossego durou pouco. Novos alcagüetes pipocavam a cada semana. Num dia, o velhinho abandonado pelos filhos foi dizer que eu comprava seus remédios todos os meses; noutro, dez ou doze meninos da favela embaixo do viaduto espalharam que eu lhes dera os livros e materiais para a escola. E quando a menina de dezesseis anos, mãe solteira, resolveu contar que eu lhe mandava fraldas e leite Ninho todas as semanas? Fui motivo de piada! Diziam que eu estava afrouxando minhas convicções, que ia enfim me converter, essas asneiras. Minha mãe veio dizer que se orgulhava de mim. Oras, para o inferno todos eles! Desde quando tinha que dar satisfações para alguém?

Pois numa manhã, quase na frente da loja, um moleque de uns dezoito anos encostou uma faca no estômago de uma velhinha que saía do banco com o dinheiro da aposentadoria. Apavorada, ela gritou, e o maldito rasgou-lhe o ventre. Enquanto dois taxistas socorriam a senhora, corri com uma chave inglesa atrás do desgraçado. Quase não o alcancei, mas afinal consegui; foi um golpe só, com canônica piedade, no alto da cabeça, e o canalha se esparramou pelo chão. Apoiei-me então num poste, senti uma dor fulminante no peito e caí sentado. O esforço da corrida tinha sido demais para mim. Eu estava morto.

Não sei dizer quanto tempo estive inconsciente. Quando dei por mim, estava no meu próprio velório. Mentiria se dissesse que aquilo não me impressionou; podia ver a mim mesmo ali deitado, rosto lívido, semblante agoniado (afinal, que terno era aquele? E principalmente QUE TERÇO ERA AQUELE EM MINHAS MÃOS?). Num instante tive a resposta; sentadas em fila, à minha direita – ou à direita do caixão, melhor dizendo – estavam minha mãe, minha avó e as malditas tias beatas… Cadelas! E o pior é que eu sequer podia protestar; tentei sacudi-las, puxar seus pés, mas qual o quê… Comecei então a prestar atenção nas conversas. Felizmente, a velhinha se salvara, mas o salafrário do ladrão também… Meu golpe não tinha sido forte o bastante… Ei, que história é essa de que eu era um bom homem, que tivera cuidado para não matar o bandido?… Conversa fiada, só não matei porque não pude, a intenção era essa… Como assim “um espírito cristão”? Eu? EU? Só se fosse um espírito de porco… Essa gente não respeita nem os mortos!

E o velório estava lotado. Não consigo entender o que tanta gente foi fazer ali. Desocupados! Todos cochichando pelos cantos, aproximando-se do caixão com reverência… Deixem disso, pessoal, vão para casa… Meninos estúpidos, parem de chorar! E foi então que o achincalhe supremo aconteceu: ali entrou um padre. UM PADRE! Com a batina e todos os ridículos paramentos. Era inacreditável! Enumerou bobagens por uns dez minutos, desfiando suas bazófias, e então – isso ainda me revolta só de lembrar – aspergiu água benta sobre meu corpo indefeso. ÁGUA BENTA! Se fosse benta mesmo, teria ricocheteado, fervido, qualquer coisa assim…

E lá foi o cortejo, a pé, rumo ao cemitério. Estranho que eu não conseguisse afastar-me daquela caixa de madeira onde aquilo que fora meu corpo sacolejava nos paralelepípedos. E sem que eu saiba explicar como, ao baixarem o esquife ao fundo da cova, vi-me ali dentro. Logo, coberto de terra, mergulhei na mais densa escuridão.

Então era aquilo? Ficaria ali? Aquela razão que definia minha identidade permanecera presa à matéria perecível? Ali estava o argumento que eu sempre buscara em minhas discussões! Não havia mais nada depois da morte! Apenas a escuridão eterna. Vazio e breu.

Comecei a perguntar-me então quanto tempo poderia durar aquele torpor sombrio. Não era um pesadelo. Estava de fato morto, e bem morto – mas continuava consciente de mim mesmo. Como era possível? E então eu senti – de que maneira? desconheço – senti que minhas carnes apodreciam. Uma miríade de vermes despontava de minha carcaça inútil, reiniciando o ciclo infindo da matéria que se renova. Mas e quando nada mais restasse daquele volume putrefato? O que seria de mim? Afinal, onde eu estava? O que estava havendo? Como podia estar ainda consciente? Não era possível que existisse um espírito! Por Deus…

POR DEUS? COMO ASSIM “POR DEUS”?

Juro pelo que quiserem que essas palavras brotaram involuntariamente em minha consciência. E no mesmo instante a escuridão desapareceu. Fui envolvido por uma luz cuja origem me é inexplicável. E, mesmo morto, vi-me preso das mesmas sandices que negara por toda a minha vida. Divisei um vulto – que tentei execrar com alguma blasfêmia simpática – mas não consegui falar-lhe. Era como se houvesse perdido para sempre aquelas expressões. Toda a angústia imediatamente anterior desaparecera, mas eu me recusava a aceitar aquelas pirotecnias post-mortem. Dali a pouco um ruflar de asas precederia um anjo? Ou meus pés encontrariam uma relva macia?… Quá, quá, quá! Terão de fazer muito melhor que isso! Não é porque estou morto – e em suas mãos – que vou conformar-me a essas pieguices…

O vulto continua diante de mim. Não vou falar-lhe até que ele fale comigo; não aceitarei suas explicações metafísicas. Simplesmente não acredito nelas. Minha atual situação não mudou minhas convicções. Nunca acreditei nessas bobagens de religião. E agora eu sei que mesmo depois da morte nós, ateus, não seremos respeitados. Decididamente, eles não desistem…

 

Leandro Gonsales Ciccone

(setembro de 2009)

Isabel juntou os cardápios e colocou-os numa mesa lateral.

No salão agora vazio, ainda lhe parecia ouvir a costumeira algazarra de vozes, acompanhada daquele forte e bom odor de café, com o qual se acostumara havia quase oito anos. Não havia muito a fazer nas mesas; mas, como o Davi tinha ido embora mais cedo, ela teria que organizar as coisas e fechar o caixa sozinha. Depois de passar o dia atendendo pessoas, essa solidão acabava sendo estranha.

Recolheu as derradeiras louças e passou uma vassoura pelo chão. Precisava ligar para a floricultura e acertar a troca dos arranjos. Não podia esquecer de falar com a dona Carmem sobre a idéia que tivera – uma única peça, de madeira talvez, que acomodasse o arranjo, os guardanapos e os sachês de açúcar e adoçante.

Enquanto lavava as xícaras, pratos e talheres, pensava o quanto era inacreditável o contraste entre os fregueses; se alguns eram extremamente corteses e gentis, outros eram indiferentes, quase ásperos. Muitos sequer olhavam ao redor; saíam sem ter observado o espaço nem as pessoas. Presos em seu próprio mundo, por vezes continuavam até com seus fones de ouvido, ou passavam o tempo todo entretidos com seus celulares. Não havia diálogo possível com essas pessoas – era mesmo difícil trocar com elas um sorriso ou olhar que fosse. Entretanto, havia aqueles com quem se estabelecia uma quase cumplicidade; já lhes sabia os gostos e os nomes, trocavam algumas palavras, chegavam mesmo a conversar. Um ou outro, de fato, despertavam-lhe vivo interesse. Talvez um em particular…

Encerrada a louça, conferiu rapidamente os armários e a geladeira. O rapaz das tortas faria mais uma entrega no dia seguinte; precisava aumentar um pouco os pedidos de bolos, estavam acabando muito rápido. Notou que a dobradiça do armário da esquerda estava afrouxando. Nessas horas, sentia mais falta do seu Artur; ainda era estranho não vê-lo ali, atrás do caixa, organizando tudo. Quando ele morrera, chegou a pensar que dona Carmem fecharia o café, mas fora surpreendida – além de não perder o emprego, passara a gerente! Contratara o Davi como ajudante de cozinha, assumira o caixa e as encomendas, mas continuava atendendo as mesas… Dava-lhe um certo prazer tudo aquilo, a sensação de eficiência, o sentimento de responsabilidade, um ou outro elogio dos velhos fregueses… Sentia-se orgulhosa de si mesma, na verdade. Dera conta do desafio. Já fazia quase um ano, afinal, e dona Carmem estava muito satisfeita, o lucro do café tinha até aumentado um pouquinho… Mas quando via aqueles pequenos consertos a fazer, ou quando era preciso negociar com os fornecedores, lembrava-se com carinho do seu Artur, de suas risadas e da firmeza que sabia ter nos momentos certos.

Foi para o caixa, finalmente, para encerrar as contas do dia. Ainda usavam uma registradora simples – seu Artur não se dava bem com a informática. Mas ela havia convencido dona Carmem a comprar um computador para informatizar o sistema; facilitaria bastante o trabalho (até para a contabilidade), e alguns clientes já pediam aquela nota paulista… Deviam instalar tudo no próximo mês. Era a primeira grande mudança que propunha. Enquanto contava o dinheiro e separava os comprovantes dos cartões – inacreditável como as taxas daquelas maquininhas eram tão caras! – pensava no quanto a sua vida já tinha mudado naqueles poucos meses. Depois de assumir a gerência do café, decidira voltar a estudar; tinha começado um curso de dois anos de gestão de pequenos negócios numa faculdade privada. Uma loucura! Seu aumento de salário ia quase inteiro para isso; não tinha mais tempo (e nem dinheiro) para nada. Mas as coisas que estava aprendendo já faziam diferença. Precisava falar com a dona Carmem sobre uma pequena reforma no salão, talvez modernizar os banheiros…

Contas em ordem, notas graúdas separadas para depositar no banco, a caminho da faculdade, já podia sair. Deixou o avental sobre o balcão e foi ao banheiro trocar de roupa. Na saída, diante do espelho do lavatório, sorriu para si mesma. O cabelo solto lhe ficara bem; atrapalhou um pouco em alguns momentos, mas lhe ficara bem. Sem dúvida, muito melhor do que aquele da mulher estranha… Deus! Aquilo ficou medonho! E aqueles amigos divertidos da mesa seis tinham rido muito dela… Aliás, o moço bonito também gostara do seu cabelo… Mas por que todo homem tinha que ser tão canalha? Aquela aliança no dedo não significava nada para ele? Não bastassem aqueles dois da mesa dos fundos, quase todo dia ali, naquele incêndio, casados ambos – ele que não pensasse que ela era como essa moça! Nem tinha disfarçado o interesse… Mas, de qualquer forma – e aqui Isabel abriu um largo sorriso – era bom ser notada. Seria melhor ainda se fosse por aquele moço dos óculos vermelhos… Sentia nele uma tristeza, uma carência de afeto e ternura… Teria perdido a mãe cedo, ou algo assim… Ficava esperando-o ansiosa… E que descaramento aquela história da torta! Parecia uma garotinha! Mas havia sentido algo errado… Pareceu que ele… Não, não era possível… Ele era apenas um homem vaidoso, só isso… Fora uma impressão errada…

Pensou no Zeca pela primeira vez naquele dia. Já não estava mais com tanta raiva dele. Apenas não tinha sido capaz de acompanhar as mudanças da vida dela; teve medo de ficar para trás, e ao invés de buscar ele também novos caminhos, preferiu tentar cortar os seus… Pela primeira vez na sua vida, ela, Isabel, sentia-se senhora de si. Desafios  e oportunidades se abriam, e ela estava adorando isso. Adorando! Pena que ele não pensara da mesma forma. Verdade que ela não tinha mais tempo, verdade também que ela andava pensando menos nele – mas eram tantas coisas! Trabalho, faculdade… Terminar com ele fora, certamente, algo razoável… Mas, depois de passar três anos namorando, oito meses sozinha pareciam uma eternidade…

Será que o Zeca ficara tão arruinado quanto aquele rapaz da mesa dois? Ele parecia tão bom, e tão apaixonado pela moça… Seus olhos tinham tanta verdade, tanto sentimento… Pegou a sua bolsa no balcão, enquanto pensava que, afinal, o rapaz era bonito, e talvez aparecesse por ali de novo… Passando pela mesa onde ele se sentara, a caminho da saída, Isabel não conteve um risinho.

Desligou as luzes e, enquanto trancava a porta, lembrou-se do casal de velhinhos que saíra por último. Seus olhos se nublaram por um instante, pensando em como seria bom encontrar alguém… Terminar a vida com aquele carinho, aquela paz… Mas já estava atrasada! Desceu rumo ao metrô, ainda emocionada, mas confiante. Felizmente, entardeceres podem ser sempre assim.

Leandro Gonsales Ciccone

(setembro de 2009)

A garçonete colocou os cardápios sobre a mesa.

Sempre vaidosa, Raquel logo se pôs a ajeitar os cabelos. Se as marcas do tempo, implacáveis, denunciavam em seu rosto e suas mãos os setenta anos já vividos, seus olhos entretanto guardavam um brilho jovial, que um sorriso radiante complementava naquela tarde. Na elegante simplicidade de um vestido azul-escuro, brincos e colar de pérolas, quase parecia uma mocinha debutante… Distraiu-se por uns instantes brincando com a aliança recém-polida.

Diante dela, Gregório divagava. Seus olhos estavam fixos na esposa, mas sua mente ia longe, rememorando episódios muito, muito distantes. Seus cabelos grisalhos, já ralos, emolduravam um rosto mais envelhecido; também nele o olhar impressionava, vivo e límpido – traço marcante do homem que, por toda a vida, fora capaz de inspirar confiança e firmeza. Rindo, Raquel tentou atrair-lhe a atenção:

__ Onde está, meu velho? Estou aqui falando com as paredes…

__ Desculpe, desculpe… O que estavas dizendo?

__ Nossa festa foi tão linda ontem! – apertava as mãos, ainda emocionada – Tudo, tudo foi tão bom, tão bonito! E essa aliança parece nova, olhe só como brilha! – fez um sinal risonho para a garçonete – Boa tarde, minha querida, traga um café com leite grande para mim e um espresso para o meu marido… Pode ser grande também… Ah, e me traga uma fatia de torta de palmito, por favor… Obrigada – brincou com a alça da bolsa por um instante, sem conseguir aquietar-se – Nunca imaginei, Grego, que chegaríamos a fazer bodas de ouro… Não, seu bobo, não ria, eu sempre quis ficar com você… Mas é que isso parecia tão distante… Tanto tempo! Eu ainda lembro dos primeiros dias naquela casinha da Mooca, aquele piso de madeira que estalava a noite inteira e eu não tinha jeito de encerar… E o cheiro de mofo, lembra? Demoramos tanto para construir nossas coisas… E olhe onde chegamos! Ontem eu fiquei tão orgulhosa na igreja, Grego, dos nossos filhos, dos nossos netos, de tantos amigos – Raquel chorava, torcendo as mãos, enquanto Gregório sorria, pondo a mão sobre seu braço – Aquelas palavras do padre, sobre construir uma família, uma casa, um nome… E você, seu malandro, sabia tudo daquele coral… Eu chorei tanto quando ouvi aquele coro da Cavalleria Rusticana, igual ao do nosso casamento…

Raquel pegou uma caixa de lenços de papel na bolsa. Recompôs-se um pouco, e logo recomeçou, olhando em torno:

__ Bonito esse café… Pena que não exista mais aquele em que nós vínhamos, na saída das óperas, lembra? Aliás, seu tratante, faz tanto tempo que não vamos ao Municipal! Quando estávamos namorando, você me trazia quase toda semana… Não acha que está na hora de querer me conquistar de novo?

Gregório continuava sorrindo, ainda alheado. Chegaram os cafés e a torta, enquanto Raquel retomava a conversa:

__ Ai, mocinha, eu não vou resistir àquele bolo de chocolate ali do balcão… Parece tão gostoso! Você pode trazer um pedaço para mim – olhou para o marido, entristecendo-se um pouco – É muita crueldade comer assim perto de você, meu amor? Eu sei que você não pode, mas eu ainda não me acostumei…

__ Não se preocupe… Estou bem aqui com o meu espresso… E, de mais a mais, ainda estou digerindo aquele jantar…

__ Não foi ótimo? Nunca imaginei que pudesse ser tão gostoso… E você viu o que eles fizeram em casa? Tudo! Trouxeram até as toalhas e os arranjos de flores… E aquele vinho… Eu sou fraquinha, você sabe, só tomei uma taça, mas estava tão bom… E lá vou eu de novo te provocar… Acho que foi o primeiro aniversário de casamento nosso que você não bebeu, meu querido – Raquel tomou as mãos de Gregório entre as suas – Será que aqueles sustos passaram? O doutor Amílcar falou que você está cumprindo a dieta tão direitinho que os exames já melhoraram bastante…

__ Eu acho que as coisas melhoraram bem. Estou tomando os remédios, não é? – com o cenho franzido e a expressão cansada, Gregório baixou a cabeça por uns instantes. Raquel procurou dissipar aquela sombra:

__ Mas vamos falar da festa, então… A Janaína não estava linda naquele vestidinho branco? Ai, meu velho, nossa primeira bisneta vai fazer oito anos! Que loucura! – seus olhos ficaram novamente úmidos – E sabe o que a Rosália me falou? Que ainda estão fazendo aqueles concertos de domingo na Fundação Maria Luísa e Oscar Americano… Vamos, Grego? Aquele café da manhã é tão bom! E aquele parque… Ah, e sabe o Aguinaldo? Resolveu vender a casa! Vai mudar para um apartamento lá na Aclimação… Há quantos anos eles tinham aquela casa? Quase cinqüenta, não é?

Entre uma frase e outra, Raquel foi comendo a torta e o bolo. Gregório pedira mais um café. Continuava avoado. Uma mulher, na mesa ao lado, esbarrou nele com suas sacolas; levantou-se para facilitar-lhe a passagem.

__ O que você tem, meu querido? Está assim desde ontem… Aconteceu alguma coisa?

__ Não, nada… Cismando um pouco, só…

__ E aquele discurso do Zé Ricardo, Grego, como eu chorei! Achei que tinha até quebrado a sua mão, de tanto que apertei… Esse filho sempre foi o nosso orgulho… Não que o Neco e a Cidinha não sejam, mas… Lembra quando ele entrou na Faculdade de Engenharia? Primeiro colocado! Sempre tão estudioso, tão dedicado… Aliás – Raquel interrompeu-se, garfo em punho, e encarou fixamente o marido – eu quero saber porque o senhor não fez um discurso para mim ontem, seu ingrato…

__ Você sabe que eu não sou de falar, minha velha… Ainda mais na frente de todo mundo – Gregório inquietou-se visivelmente na cadeira.

__ Mas como, isso é um absurdo, depois de tantos anos… E todos eram conhecidos, nossa família, nossos amigos… Eu fiquei decepcionada, sabia? Queria tanto que você tivesse falado alguma coisa…

__ Mas você não disse que tudo estava ótimo? …

__ Não interessa, eu estava esperando – Raquel ralhava, num meio sorriso – Achei que eu merecia…

__ Já volto, Raquel, vou ao banheiro – Gregório levantou-se, apoiando-se nos braços da cadeira, e caminhou com passos um tanto trôpegos para os fundos do café. Passou pela garçonete, que sorriu para ele e perguntou se precisava de alguma coisa. Foi até o lavatório e molhou o rosto e as têmporas. Sua imagem no espelho parecia agora um tanto angustiada.

Ao voltar para a mesa, Raquel ainda esperava uma resposta:

__ Não fuja de mim, senhor Gregório Masucci… Não se faz cinqüenta anos de casado todo dia, e eu fiquei esperando… – ela interrompeu-se ao ver uma grossa lágrima correndo no rosto do marido – O que foi, Grego, você está se sentindo mal? Precisamos ir embora? Ai, meu Deus! – Raquel levantou-se para pedir ajuda, mas Gregório tomou suas mãos e a fez sentar-se.

__ Eu queria falar umas palavras para você, minha velha… Até escrevi num papelzinho… Tentei várias vezes, mas tudo se embolava na minha garganta e meus olhos começavam a arder… Eu não consigo… Olhe, o papelzinho está aqui… Leia você…

Estendeu para a esposa um pedaço de papel amarrotado e um pouco úmido.

__ Mas eu não vou conseguir ler, estou sem os meus óculos…

Gregório olhou fixamente para a esposa. Respirou fundo umas duas vezes, tentando controlar as lágrimas que agora corriam livremente, e apertou mais forte aquelas mãos entre as suas:

__ Eu não sou de falar, Raquel… Mas eu só queria dizer que agradeço a Deus todos os dias… Agradeço a Deus por ter vivido minha vida inteira junto de você… Toda a felicidade que tive… Cada noite, minha paz sempre foi adormecer ao teu lado, e cada manhã minha alegria é despertar com o teu rosto diante de mim… Agradeço a Deus por ter você, por encontrar nos teus olhos o amor que me fez o que eu sou…

__ Pára, pára, seu bobo… Você fica muito feio chorando – Raquel ria, com os olhos marejados de lágrimas – Ainda bem que você não falou essas coisas ontem… Seus filhos não iriam te reconhecer…

Gregório beijou as mãos da esposa. Olharam em volta; eram os últimos fregueses. Ele deixou o dinheiro sobre a mesa, e saíram de mãos dadas, com seus passinhos curtos e um tanto incertos.

Isabel sorria ao observá-los, de um canto no balcão. Não tivera coragem de avisá-los que o café já deveria ter fechado havia quinze minutos. Foi até a porta de vidro e encostou-a; precisava arrumar as coisas e encerrar o caixa. Agora silencioso, o salão parecia maior; mas os ecos do dia permaneciam ali. Finais de tarde são sempre assim.

Leandro Gonsales Ciccone

(agosto de 2009)

A garçonete colocou os cardápios sobre a mesa.

Mais uma vez, seus olhos encontraram os de Rodrigo. Após um instante de vacilação, a moça baixou de leve a cabeça e voltou para o balcão.

Aquela devoção muda inspirava o rapaz. Passava por aquele café, todos os dias, no fim da tarde; vinha caminhando de seu apartamento na Consolação, comprava o jornal, e sentava-se (sempre na mesma mesa) para um capuccino com muito creme. Rotina imutável nos últimos seis meses. Sempre sozinho. Depois de alguns dias, notou o interesse da moça, que se afobava um pouco ao vê-lo, e procurava uma ocasião para lhe falar. Divertia-se imaginando como seria esse diálogo, qual pretexto ela escolheria.

Mas depois de tantas semanas, já não se divertia mais. Havia alguma coisa naqueles olhos que o perturbavam. O arranjo de flores da sua mesa sempre era o mais vistoso; nunca tomara capuccinos tão saborosos. Ela parecia adivinhar seus pensamentos, e materializava-se ao seu lado no instante em que ele cogitava chamá-la. Naqueles olhos um tanto tristonhos, ele pressentia um espírito que talvez pudesse compreendê-lo. Algo que jamais pudera fazer por si mesmo.

Passou de leve as mãos pelos cabelos, repicados com gel. Observou a própria aparência com vaidosa aprovação: os óculos vermelhos, os brincos de brilhantes, a pulseira de ouro, os anéis, o tênis colorido, a calça axadrezada. Tamborilou os dedos sobre a mesa, reconhecendo o trabalho caprichoso da manicure em suas unhas.

Não fora capaz de produzir nada nos últimos meses. Era a primeira vez, desde que instalara seu estúdio ali pelo centro, que o trabalho não fluía. Tinha uma encomenda importante, um painel para o mall da sede da empresa de um velho amigo de seu pai, algo sobre aço – mas nada lhe vinha! Passava horas esboçando, aventando materiais. Pensara até numa viagem para espairecer. Talvez a Índia, de novo, ou o Nepal… Seu pai sempre quisera conhecer o Nepal.

Lembrou-se dele com ternura. Sua mãe morrera por uma septicemia, poucos dias após o parto; o pai então o levou a morar com a mãe dele, num imenso casarão dos Jardins. Filho único, neto único, herdeiro único – perdeu o pai num desastre de carro quando tinha dez anos. Vivera com a avó até o ano anterior, quando também ela se foi. Era como se a morte o espreitasse sempre… Fechou o casarão da família, comprou aquele apartamento de cobertura na esquina da Consolação com a Caio Graco, e fora viver sozinho… Não que tivesse planejado assim… Achou que o Jaime aceitaria morar com ele, mas as coisas não se acertaram…

Inadvertidamente, já estava com o jornal aberto diante de si; folheava-o distraído, sem conseguir fixar-se em nenhuma notícia.

A garçonete voltou com o seu café. Havia um quase sorriso em seus lábios quando Rodrigo relanceou os olhos em sua direção. Finalmente ela falaria!

__ Senhor, eu lhe trouxe uma torta de nozes que faz muito sucesso com os fregueses. É uma cortesia, apenas para o senhor experimentar. Tenho certeza de que vai gostar muito.

__ Obrigado… Como você se chama?

__ Isabel, senhor.

__ Venho aqui há tanto tempo e ainda não sabia o seu nome… O meu é Rodrigo. Vou experimentar a torta, então. Obrigado, Isabel.

A moça sorriu e, mais uma vez, baixou a cabeça antes de afastar-se. Rodrigo ficou imaginando quanta coragem lhe fora preciso reunir para aquelas poucas palavras. Pobre moça! Parecia muito direita, era até simpática, mas tão simplória… Sobre o que iriam conversar?

Olhou em torno, distraído. Naquele dia, o café parecia até mais cheio do que o normal. Alguns freqüentadores habituais já haviam chegado. O casal fogoso já se abancara da mesa ali mais adiante da sua – era melhor nem olhar naquela direção; o grupo de amigos estava se sentando. Um rapaz e uma moça, numa das mesas da frente, pareciam estar rompendo um namoro ou algo assim. O rapaz era bonito, mas parecia tão triste… Mas que diabos era aquilo que acabara de entrar? Uma mulher medonha, de cabelos pintados com algum tipo de louro radiante ou coisa que o valha… Sem nenhum senso de ridículo, por Deus…

Voltou-se então para o jornal, inconformado com o que vira. Mas em menos de cinco minutos, uma sonora gargalhada vinda da mesa dos amigos chamou sua atenção. E lá estava ele… Rodrigo riu de si mesmo, pensando no que diria àquele homem que observava à distância uma ou duas vezes por semana. Constrangia-se ao supor que teria o mesmo desconforto da garçonete se, por algum motivo, surgisse a ocasião de lhe falar. Um tanto inquieto, brincou com os anéis em seus dedos, tentou retomar a leitura do jornal, mas decididamente estava num mau dia. Foi então que percebeu a mulher medonha olhando para a mesa dos amigos – olhando para o seu…

Era inacreditável! Como aquela velhota tinha o descaramento de flertar assim com um homem tão superior a ela… Será que não via o quanto ele estava além das suas possibilidades? Vinho novo, novíssimo, encorpado, não iria derramar-se em odres velhos… E então Rodrigo sorriu, pois o alvo percebera o flerte e devolvera a velhota à sua insignificância. A mulher parecia ter envelhecido mais uns dez anos naqueles instantes. Por sobre o jornal, observava-a, atacando com fúria um bolo de chocolate… Péssimo consolo, senhora – um riso mau, de escárnio, apareceu em seus lábios…

E o pior ainda estava por vir. Num de seus olhares em direção à mulher, Rodrigo foi notado. Ela o encarou fixamente, desviou os olhos, encarou-o de novo… Não era possível! A vovozinha achava que ele flertara com ela! Ele! ELE! Rodrigo enrubesceu, baixou os olhos sobre o jornal, sem saber se ria ou gritava.

Mas logo percebeu que a mulher se levantava e saía do café. Aliviado, voltou a observar a mesa dos amigos. Eles riam ainda daquela velhota alienígena… Ele também ria. Parecia tenso. Teria acontecido alguma coisa? Pouco depois, os amigos levantavam-se para ir embora. Rodrigo acompanhou-o com os olhos, e percebeu-lhe um olhar em sua direção. Agitou-se. Mas, virando-se, encontrou a garçonete atrás de si. Ah, tinha sido para ela aquele olhar…

Isabel parecia ter percebido alguma coisa. Fora arrumar a mesa deles com um semblante pouco amistoso. Constrangido, Rodrigo chamou-a.

__ Olhe, Isabel, eu já vou. Muito obrigado pela torta, estava deliciosa. Acho que agora vou querê-la todos os dias.

A moça sorriu, com um certo alívio:

__ Que bom, fico muito satisfeita. O senhor deve ser o nosso melhor freguês…

__ Até amanhã, Isabel. Obrigado.

Rodrigo levantou-se, e seus olhos cruzaram-se novamente com os dela, que agora pareciam radiosos. Desconfortável, saiu rapidamente do café e ganhou a rua.

Isabel sorria ao recolher a louça de sua mesa. Lá estavam a gorjeta generosa de sempre, o jornal que ela levava para ler no metrô, o guardanapo dobrado várias vezes… Tentava entender aquela impressão desconfortável de instantes atrás… Parecera-lhe que… Mas não, não era… Ou seria?… Mas o casal da mesa do fundo levantava-se, ainda aos beijos, e ela preferiu voltar para o balcão. Precisava lavar aquelas xícaras… Finais de tarde são sempre assim.

Leandro Gonsales Ciccone          (agosto de 2009)

A garçonete colocou os cardápios sobre a mesa.

Adriana acompanhou com impaciência seus passos a se afastarem. Voltou-se então para Leon, com os olhos em brasas. Este já aproximara sua cadeira, e colocara uma sôfrega mão sob sua saia. Rindo, a moça o reteve:

__ Calminha aí, rapaz… Olhe onde estamos…

__ No mesmo café, e na mesma mesa, isolados dos olhares indiscretos – Leon respondeu, enquanto a tomava nos braços – E eu estou seco pela tua boca…

Durante minutos, beijaram-se apenas, furiosamente. Carícias intensas já haviam aberto botões de um decote, amarrotado uma gravata, afrouxado uma camisa. Ambos sentiam-se febris. E mais uma vez foi Adriana quem arrefeceu o clima tórrido:

__ Chega, Leon, você me mata – seus olhos crispavam, enquanto mordia o lábio inferior – Chega… Estamos fugindo ao controle…

__ Você sabe para onde eu queria ir… Diz que não pode, não quer, mas está aí, a ponto de bala… Por que não, hein? Olhe nos meus olhos e diga que não quer mesmo – ele a segurou pelos ombros com firmeza, encarando-a.

__ Não faz assim, você sabe que eu te amo, que eu quero – as mãos de Adriana desalinhavam o cabelo de Leon – Mas eu não posso, não posso… Não me olhe assim, eu não agüento, eu te amo tanto…

Ela o beijou loucamente, marcando com batom sua orelha, seu pescoço, seu rosto. Reclinou-se então sobre seu peito, um tanto trêmula. Leon a abraçava, e começou a falar-lhe ao ouvido, com voz mansa e pausada:

__ No próximo fim de semana, vou alugar um chalé perto de Campos do Jordão. Nós vamos ficar juntos, só nós dois… Não me interessa como, minha linda, você vai… E nós não vamos sair da cama nem por um instante… Minto… Só vamos sair da cama para a banheira… Da banheira para o tapete, em frente à lareira…

Adriana tremia e arfava sobre o peito de Leon. Balbuciava recusas que sequer conseguia formular de fato. Sentia o calor daquele corpo, acompanhava o movimento do ar em seus pulmões, envolvia-se inteira naquele amor que a incendiava. Acariciou o rosto daquele homem a quem sucumbia tão completamente. Não se lembrava de sentir nada semelhante em toda a sua vida.

Cobiçara Leon desde o primeiro encontro. Roda de amigos, churrasco, piscina… Piscina. Vê-lo nadar fora uma experiência dolorosamente deliciosa. Fizera um esforço inaudito para esconder seu arrebatamento. Mas outros encontros vieram, e Leon a procurara. Provavelmente ele logo percebera. Flertaram veladamente, mas a atração crescera a tal ponto que não podiam ver-se sem tocar-se. Ele a convidara para uma corrida no parque; quando chegaram a um bosque um pouco mais ermo, simplesmente a prensou junto a uma árvore e a beijou com ímpeto quase brutal. Ela sequer esboçou resistência.

Dali em diante – já se iam três meses – os encontros se amiudaram. Agora, quase todos os dias, passavam naquele café à saída do trabalho (o escritório dele ficava por ali; ela vinha da Paulista para encontrá-lo). Passava o dia pensando naqueles instantes. Já não era mais capaz de negacear o inevitável…

Leon tomou-lhe a cabeça entre as mãos. Seu olhar sequioso parecia despi-la. Com um acento felino na voz, murmurou:

__ Quero uma resposta… Somos adultos, não podemos continuar com esses joguinhos – seus dedos entrelaçaram-se nos longos cabelos de Adriana – Quero saber se você vai ou não comigo…

A moça ainda hesitava. O rapaz empalideceu um pouco, enquanto suas mãos afastavam um pouco a moça de si. Foi o que bastou.

__ Eu vou, eu vou, não posso mais… Eu vou… Eu quero…

Beijaram-se mais uma vez vigorosamente. Leon olhou para o relógio de pulso, e Adriana sobressaltou-se.

__ Nossa, é muito tarde, precisamos ir – recompôs um pouco suas roupas, ajeitando o cabelo.

__ Vamos tomar um café primeiro – Leon chamou a garçonete e pediu dois espressos – Você não manchou minha camisa, não é?

__ Não, Leon, não se preocupe – ela ria, enquanto retocava a maquiagem – Mas acho melhor limpar o seu pescoço e o seu rosto – pegou um lenço de papel e retirou as marcas de batom do rapaz.

Beberam rapidamente os cafés. Leon deixou uma nota graúda sobre a mesa e, levantando-se, trouxe Adriana para junto de si:

__ Esse fim de semana vai ser perfeito, eu te juro – suas mãos correram pela cintura da moça, que sentia seu corpo afrouxar.

Atracaram-se num último beijo, demorado e ardente.

__ Tenho que ir, Leon, meu marido está me esperando para jantar – Adriana brincava distraidamente com a aliança no anular esquerdo de Leon.

__ Eu também preciso correr, a Carolina quer que eu passe no supermercado antes de ir para casa…

Passaram então pelas mesas sem olhar em volta, e despediram-se à porta do café.

A garçonete recolheu a mesma gorjeta generosa de sempre, um pouco incomodada. Arrumou a mesa, e vacilou por um instante ao afastar as cadeiras deixadas tão próximas. Mas o senhor idoso da mesa 3 vinha em sua direção, e ela encaminhou-se rapidamente para atendê-lo. Finais de tarde são sempre assim.

 

Leandro Gonsales Ciccone          (agosto de 2009)

LETTERS FROM ENGLAND

Tanta chuva nesses frios e umidos veroes ingleses…
Umidade nas ruas, nos bancos, nos gramados,
Nas folhas das arvores, nos tijolos das paredes…
Sobriedade nos predios e nas pessoas;
Polidez e cortesia sem efusoes tropicais,
Nesgas de sol em meio a neblina…
Uma babel de vozes e origens,
Um deleite de livrarias a cada esquina,
Floreiras arranjadas com esmero – devolvendo vida as construcoes de tempos idos.
Umas tantas saudades, contudo.
Dos bons espressos, do “arroz com feijao”, da luminosidade do ceu,
Do sorriso franco nos rostos, da espontaneidade dos gestos…

Eterna insatisfacao do homem!
Quanto encontra abrigo para o seu espirito inquieto
Sente seu coracao perder-se em velhas buscas…

Leandro Gonsales Ciccone

julho de 2009

LETTERS FROM ENGLAND

Aos bravos parceiros-leitores, umas tantas desculpas. Estou em viagem, e sequer tive tempo de deixar por aqui um aviso… Neste mes de julho e pouco provavel que algo de novo passe por estas paginas; mas em agosto estaremos de volta, encerrando o ciclo das mesas de cafe, partilhando as memorias de um nonagenario simpaticissimo, comecando um novo ciclo policial, crimes numa mansao cujos personagens parecerao familiares (Cel. Mostarda, Dona Branca, Sr. Marinho…) – e outros, avulsos, que ja estao despontando nesta cabeca que se esforca por entender a mao de direcao inglesa). Grande abraco a todos e obrigado – muito obrigado! – pela companhia.

P.S. Os teclados ingleses nao tem acentos nem cedilhas…

Postagens Antigas »